23 Dezembro 2006

VEM AÍ O Nº 7


Está quase a sair o nº 7 da Revista Nova Vaga. Terá como tema principal "O DIREITO À RESISTÊNCIA por parte dos cidadãos em Democracia", com artigos sobre este assunto de António Garcia Pereira, José Saldanha Sanches, Diogo Pacheco Amorim, João Almeida Garrett, Joaquim Quelhas Mota, Jorge Ferreira, Manuel Brás e Miguel Félix António.

27 Novembro 2006

Entrevista Com Manuel Monteiro

GRANDE ENTREVISTA

Conduzida por Sara Marques


SEM UM GRANDE COMBATE IDEOLÓGICO A DIREITA NÃO SE AFIRMA

Numa entrevista em que procuramos conhecer o pensamento político do Presidente da Nova Democracia, houve ainda tempo para percorrer os corredores que o levaram a sair do CDS e a partir para outra iniciativa partidária. Directo, vai ao ponto de afirmar que PSD e CDS são aliados da esquerda, na recusa de um verdadeiro debate ideológico. Quando lhe perguntamos porquê, responde sem hesitar que há um novo contrato social celebrado entre os que criticam na aparência o Estado, para dele viverem na essência. Defendendo a afirmação de uma direita patriótica, universalista e amante da liberdade, explica que essas são as características do conservadorismo liberal português e que é em nome desses princípios que sustenta um amplo debate na direita portuguesa. Crítico da tecnocracia que considera herdeira do bloco central, sustenta a actividade política como uma competição de ideais que conduzam à existência de alternativas, por oposição ao que considera ser o rotativismo actual do sistema.


Dr. Manuel Monteiro, o que é que o fascina na política, o que é que o levou enquanto jovem a ingressar num partido político?

Fascina-me o desafio e a possibilidade de através desse desafio constante, competirmos pelas nossas ideias. Eu penso que é uma actividade de competição e aquilo que torna a política mais enfadonha, e mais aborrecida, é o facto da competição pura, dura, mas leal, deixar de existir. A competição por ideias, o jogo competitivo, é algo de profundamente fascinante porque requer inteligência, convicção, capacidade de persuasão, arte de comunicar, ou seja envolve um conjunto imenso de factores que ainda não foram descobertos por muitas pessoas. É evidente que a política na sua versão tecnocrática é o oposto disto tudo, e portanto em nome do fazer, e do fazer a qualquer custo, independentemente do pensar, do debater, a politica perdeu o seu lado apaixonante. Essa paixão, digam o que disserem, existiu no - pós revolução e no início da década de 80 e foi precisamente nessa época que mais jovens, como eu, foram atraídos para a política.

E nessa altura porquê a Juventude Centrista?

Primeiro, distribui papéis na JS. Eu estava num liceu, o Passos Manuel, onde também estudava na minha turma, o actual ministro da justiça, o Dr. António Costa, bem como o Dr. Henrique Freitas, que foi Secretário de Estado da Defesa do governo Durão Barroso. Era um liceu muito marcado pelas lutas políticas. Muitas dessas lutas assumiam mesmo o confronto físico, entre militantes da UEC, a União dos Estudantes Comunistas, e o MRPP. Era também um liceu com uma forte implantação da UDP. A luta entre várias facções e interpretações do chamado movimento revolucionário era profunda, diária e intensa. Nesse contexto a JS representava o lado solto e mais sereno do movimento estudantil e eu comecei, com total naturalidade e abertura, a distribuir panfletos preparados pela juventude socialista. Isto aos 14 anos.

Mais tarde aderi ao núcleo da Juventude Centrista que existia no Liceu, muito por “culpa” do grupo com que me tinha entretanto começado a relacionar. Depois recordo-me que nesse ano fui passar as habituais férias de Verão à quinta do meu Avô, em Vieira do Minho, e na casa do meu Avô descobri imensa propaganda do CDS. Percebi que a minha ligação recente à Juventude Centrista teria toda a aceitação por parte de alguém que me era particularmente querido e a partir daí a minha “aposta” no CDS aumentou.

Mas a sua adesão é muito mais por força das circunstâncias do que por convicção ideológica…..

Com certeza, repare até essa altura eu devia ter lido quase todos os livros do Camilo e do Eça, mas livros sobre acção política, no sentido puro do termo não conhecia nenhum. Seria uma presunção da minha parte estar aqui a dizer que aderi a juventude centrista por ideais, pela doutrina, do próprio partido. Isso foi algo que encontrei mais tarde. A minha adesão é feita da forma mais espontânea e muito por reacção á situação que se vivia no próprio liceu, onde estudava.

Quando pensa nos tempos que passou na JC, no CDS e também no PP, no geral pesam mais as situações positivas ou negativas?

As positivas com certeza. Não se podem deitar fora recordações, combates, lutas, momentos, vividos durante muitos e muitos anos. Eu estive 20 e muitos anos ligado aquele partido, e (…)

- O PP foi um projecto de direita sem complexos -

Foi portanto um bom capitulo da sua vida….

(…) sem duvida. Repare eu fui quase tudo naquela casa. Comecei como dirigente associativo estudantil, depois fui membro de uma concelhia da juventude centrista, fui vice-presidente de uma estrutura distrital, fui vogal da direcção nacional da JC tendo a meu cargo a implantação nas escolas, fui vice-presidente da juventude centrista e, mais tarde, seu presidente durante 4 anos. Passei pelo Parlamento em 1985, como deputado substituto, fui posteriormente conselheiro nacional do partido, e depois, em 1992, candidatei-me à liderança do CDS, tendo ganho o Congresso em Março desse ano, no Hotel Altis (…)

Altis onde vai regressar, mas agora com a Nova Democracia…

(…) é verdade. Mas voltemos ao CDS. Um ano após a minha eleição começámos a preparar a sucessão do CDS criando o PP e em finais de 1993 fundamos o Partido Popular, o primeiro partido com representação parlamentar a assumir-se, verdadeiramente, como partido de direita.

Acto que foi considerado por muitos como o enterro do CDS…

É verdade, mas eu prefiro falar em sucessão. Não escondo todavia que entre o CDS e o PP iam as diferenças que permitiram ao Prof. Freitas do Amaral desfiliar-se e ao Dr. Ribeiro e Castro manter-se afastado.

Entretanto sai e funda a Nova Democracia.

Eu saio de Presidente do PP em Março de 1998, curiosamente na mesma data, no mesmo mês, em que tinha sido eleito 6 anos antes e em 2003 participo activamente na fundação da Nova Democracia..

- O bloco central destruiu a emoção e a paixão pela política e abriu caminho aos tecnocratas -

Acha que a estrutura partidária da qual faz parte um grande capítulo da sua vida e do qual guarda boas recordações ainda existe? O Sr. Dr. já lá não está, mas acha que essa estrutura ainda existe?

Não sei, eu penso que se calhar não existe lá como não existirá na esmagadora maioria dos partidos. Creio que a lógica da militância pura, existente de forma inquestionável em todos os partidos no pós 25 de Abril, deixou de existir a partir de determinada altura. O momento de viragem é o governo do bloco central. Até 1983 a política é vivida com imensa emoção no país. É evidente que há um partido revolucionário que não é alheio a isso, mas havia combate partidário puro. Sair de casa para participar em qualquer acção política era um desafio intenso. A partir de 1983 o governo de bloco central, coligação PS/ PSD, veio alterar totalmente isso. Os adversários passaram a funcionar como aliados, as alternativas sucumbiram perante as alternâncias e os desentendimentos previamente combinados passaram a ser a regra não escrita.

A política perdeu interesse?

Em muitos aspectos sem dúvida que sim. 1983 é o momento da viragem e a preparação para a entrada triunfal dos tecnocratas na política portuguesa.

Está a falar dos governos do Prof. Cavaco Silva?

Estou também a falar dos governos do Prof. Cavaco Silva, não há que o esconder. Habitualmente as análises não contemplam esta questão, mas o certo é que após o bloco central tudo foi diferente, para pior, na política portuguesa. Com a tecnocracia como pano de fundo procurou-se dar a ideia de que as ideias e o debate ideológico eram uma pura perda de tempo e o resultado conduziu a que a luta política fosse essencialmente centrada na “competência” dos intervenientes e menos, muito menos, nas ideias dos mesmos.

E isso foi negativo….

O resultado está à vista. Nada muda na essência, porque na essência quem promove a alternância é apenas a outra face da mesma moeda. Pode existir muita polémica, muita gritaria, mas no fim tudo e todos convergem para a mesma mesa….

- O Pacto MFA – Partidos foi substituído pelo Pacto do Bloco Central de interesses -

Falemos então da Nova Democracia. Ela é ou não uma força política de direita?

Bom no primeiro momento não se assumiu como tal. Fruto de variadas circunstâncias a Nova Democracia surge como um partido que recusa aquilo que designou de leitura simplista da política, espartilhada entre a geografia da direita e da esquerda, sem que essa classificação tivesse tradução valorativa. E nisso se afastava, num certo sentido, do Partido Popular. Este pretendeu, sem qualquer margem para dúvida, ser um partido da direita democrática, da direita moderna, que respondesse a um vazio claro que existia na vida politica portuguesa. O PP não fazia parte do sistema, na medida em que não subscrevia a lógica subjacente ao Pacto MFA – Partidos.

Está a dizer que essa lógica, em 1993, ainda se mantinha?

Sem dúvida. Não é por acaso que falo de “lógica”. O Pacto MFA – Partidos foi substituído pelo Pacto do Bloco Central de interesses. Interesses que convergem e que são determinados entre a classe dominante do regime. Essa classe dominante é constituída por pessoas do PS, do PSD e também do CDS. Ela partilha, entre si, os melhores postos da sociedade. No governo, na oposição, nas principais autarquias, nas administrações hospitalares, nas administrações de empresas públicas ou de influente presença do Estado, nos institutos públicos, a repartição é perfeita. Há até quem diga que essa partilha se estende a negócios que são salomonicamente distribuídos por certos gabinetes….

Está quase a falar de um Estado dentro do Estado…

Estou mesmo a falar disso. Há para aí uns quantos distraídos que pretendem ver em certas organizações o centro de um imenso e terrível poder, quando de facto deviam orientar as suas análises para a extensão concreta deste imenso Pacto do Bloco Central alargado (…)

Alargado?

(…) sim alargado, porque não nos podemos esquecer do CDS, ou de parte considerável de vários dos seus dirigentes. Há aliás uma versão moderna para designar este bloco central alargado (…)

Qual é?

(…) é o chamado “arco da governabilidade”. Foi criada para permitir a entrada do CDS na tertúlia das negociações.

Mas o PP, enquanto o Dr. Manuel Monteiro foi seu presidente, também negociou com o governo PS. Estou a lembrar-me do Orçamento de Estado…

É verdade, mas a negociação foi política. Apenas política. Comigo não se registaram acordos para lá daqueles que implicavam a negociação pura em torno das propostas orçamentais.

- O PP foi apenas tolerado pelo CDS. E enquanto tinha sucesso eleitoral -

E como era a relação do PP com o CDS? No fundo os senhores eram inquilinos do Caldas e o Caldas já existia.

A relação teve altos e baixos. O PP é tolerado dentro do CDS enquanto vence, enquanto tem êxito eleitoral. Mas em muito aspectos era quase um intruso dentro do CDS. O PP tinha uma linguagem nova e, muitas vezes, dentro da própria casa era considerado radical, populista, demagogo. Nós tínhamos uma forma nova de comunicar, como aliás ficou patente nas campanhas de 1994 e de 1995. Entretanto, fruto de circunstâncias várias, eu demito-me e quem me sucede, o Dr. Paulo Portas, começa a falar num primeiro momento em CDS-PP, para num segundo momento, só falar de CDS, assumindo aliás com toda a legitimidade o regresso ao passado, no que tem sido entusiasticamente acompanhado por Ribeiro e Castro.

Então volta a existir um vazio à direita….

Exactamente.

Mas se assim é o que leva a Nova Democracia a não querer ser, logo de início, um partido claramente de direita?

A queda do muro de Berlim e o desmoronamento do império soviético, conduziram a que muitos tivessem decretado o fim das ideologias, ou pelo menos das ideologias tal qual tinham sido escritas e proclamadas. Nesse sentido parecia ultrapassado, e até redutor, continuar a falar nos velhos moldes em direita e em esquerda. Surgia assim a ideia de que mais importante do que situar valores à direita ou à esquerda, era ter valores e trazê-los para a vida politica nacional…

Esse entendimento falhou…

(…) não sei se podemos dizer que falhou, mas de facto ele não correspondeu ao que todos desejavam. A realidade e as suas circunstâncias nunca podem ser menosprezadas no plano da acção política e a Nova Democracia teve efectivamente dificuldade em transmitir uma mensagem que não “casava” com o sentimento da maioria dos seus membros, talvez desde logo comigo próprio. Se eu me tinha batido pela existência de uma direita partidária parecia estranho aos olhos de muita gente que agora surgisse dizendo que a “classificação” não era relevante.

- O 2º Congresso da Nova Democracia marcou a mudança de rumo - Daí a mudança?

Daí uma reflexão serena e a aprovação, no 2º Congresso, em Aveiro, de um documento “Os Valores Políticos da Nova Democracia” que clarificavam o posicionamento ideológico do partido. Para além de clarificar, esse documento abria caminho para os passos que entretanto viriam a ser dados.

Tais como a proposta de Manifesto para a Direita?

Claro que sim, bem como a própria proposta para a realização dos Estados Gerais da Direita. Sem o Congresso de Aveiro não teríamos corrigido o tiro e sem o documento de que lhe falei não teríamos hoje condições para explicar a que Direita queremos pertencer e qual o significado que a palavra tem para nós. O Congresso de Aveiro permitiu definir um rumo e é em seu nome que estamos agora a caminhar.

Sente então que até Aveiro a Nova Democracia perdeu tempo?

Não digo isso, mas registei que quantos se bateram por um partido não identificado com a direita se afastaram após resultados eleitorais negativos, tendo até num ou noutro caso saído da Nova Democracia para aderir ao PS. Afinal os valores eram importantes, mas os votos não o eram menos…

Havia então uma grande confusão ideológica no seio da Nova Democracia….

Talvez, mas todos aprendemos com todos e a oportunidade de termos partilhado experiências com pessoas de elevado valor intelectual e ético nunca poderá ser considerada tempo perdido. Creio termos percebido que um partido é pensamento, mas também é acção e que esta se destina a pessoas concretas. Umas com formação académica, outras sem a escolaridade obrigatória; umas com vontade de pensar no futuro, outras apenas preocupadas em viver o presente. Todas essas pessoas são eleitoras, todas votam e todas têm o mesmo peso político. Não o perceber pode ser um exercício de grande desprendimento, mas é um testemunho de pouco realismo. A política é uma actividade competitiva, e competir na política significa captar eleitores nas suas ânsias, nas suas preocupações….

Quer então uma Nova Democracia voltada para a acção?...

A actividade política ao nível partidário é a síntese permanente entre pensamento e acção. Só pensamento conduz-nos a especulação constante; só acção conduz-nos a pragmatismo tecnocrático. O nosso desafio é agirmos em função de um pensamento claro, que nos diferencie mas que nunca descure a realidade em que nos inserimos.

- Há ainda um estigma contra a Direita -

Falemos então desse pensamento da Nova Democracia, o tal pensamento de direita, mas antes disso deixe-me perguntar o seguinte: não sente que é ainda politicamente incorrecto ser-se de direita ou pretender politicas de direita?

Reconheço que ainda há um estigma, um estigma muito grande por parte de muita gente em relação à direita. Isso é de tal forma assim que quem é de esquerda não tem nenhum problema em dizer que é de esquerda, enquanto quem é de direita prefere dizer: ” somos conservadores”, ou “somos liberais”…

Há medo da palavra?

(…) há um estigma terrível, que se mantém 32 anos depois da revolução. Você não vê na política activa quase ninguém a dizer: “eu sou de direita”, “estou aqui em nome da direita”. Fala – se do centro, do centro – direita, e deixa-se a palavra ser gasta pelos da esquerda que a continuam a usar para assustar ou amedrontar as pessoas, proferindo com total impunidade um conjunto de mentiras e falsidades, sobre a direita e os seus defensores.

Mas de quem é a culpa?

É nossa, dos que somos de direita. Dos que somos verdadeiramente de direita. Na verdade a esquerda portuguesa tem a “direita” que mais lhe interessa. Convém-lhes manter esta falsa dialéctica, para que a roda vá girando dando a impressão de competição ideológica. Nada de mais falso.

- Marques Mendes e Ribeiro e Castro não são de direita -

Falso porquê? Marques Mendes ou Ribeiro e Castro não são homens de direita? Não asseguram essa competição ideológica?

O Dr. Marques Mendes é um social democrata e o Dr. Ribeiro e Castro é um centrista democrata – cristão. Nem um nem outro são, ou querem ser, de direita.

Mas se Marques Mendes e Ribeiro e Castro não são homens de direita, tal como o não são o PSD e o CDS, que sentido teve convidá-los a participar nos Estados Gerais da Direita?

Para desfazer equívocos. É importante esclarecer, clarificar, mesmo que isso não seja vantajoso a quem gosta do sistema tal como está, ainda que se afirme contra a esquerda. Nós tivemos uma revolução de esquerda, tivemos depois um 11 de Março que conduziu a revolução de esquerda para a extrema esquerda e tivemos o 25 de Novembro, de 1975, que trouxe o regime para um imenso centro De então para cá, salvo o movimento gerado pela AD, em 79/80; a campanha de Freitas do Amaral, não digo o próprio Freitas do Amaral, em 86 e o PP de 93 a 98, não se verificou nenhuma vida à direita…

Está a dizer que o sistema parou no centro?

(…) estou a dizer que falta apresentar a direita, tal como ela é, despida de preconceitos, afastada de clichés, para que os cidadãos possam de facto fazer escolhas. Esse é um dos requisitos mínimos da democracia: a existência de reais alternativas. Sem elas não há democracia, há simulação de democracia.

- Temos de combater os preconceitos contra a direita -

Não teme que apesar de defender a direita moderna e democrática, muitas pessoas o identifiquem com o autoritarismo saudosista? Tem por certo presente a opinião que muitos têm de si a propósito das suas posições sobre a União Europeia.

Eu acredito na liberdade, a liberdade é um dos valores fundamentais para mim e é em nome desse valor, que eu sou de direita. Rejeito pois qualquer visão autoritarista.

Mas não nega a dificuldade na afirmação de um partido que se diga só de direita, sem referência ao tal espaço do centro…

Admito que se 32 anos depois a direita ainda continua a ser diabolizada por muitos, o começo não seja de grande facilidade, mas isso não nos pode impedir de a afirmar. Há muitos jovens livres que estão à nossa espera, tal como existem cada vez mais portugueses que se passam para o lado da abstenção por terem desacreditado do sistema.

Há quem tenha a ideia de que ser de direita é recusar a solidariedade social, demonstrando distância perante os mais pobres e os seus problemas. Ao contrário a esquerda responde com o chamado Estado social….

Ora aí está um preconceito contra a direita que a esquerda por comodidade e o centro por pura conveniência eleitoral, teimam em manter…

- Não sei o que é o Estado social -

Desculpe interrompê-lo, mas tenho de fazer – lhe a pergunta: rejeita o Estado social?

Não sei o que isso é… O Estado é uma criação do homem e foi uma criação tão forte que suplantou em muitas circunstâncias o próprio criador. De tal modo que temos assistido ao longo dos tempos à tentativa do Estado criar “homens novos”. Conhece por certo a expressão, bem como os seus autores, bem como os seus inúmeros percursores. A verdade todavia, a verdade crua e nua, é que em nome de tal ideia já morreram milhões de pessoas e outras tantas ainda vivem infelizes e na miséria. Se justiça houvesse esses idólatras do Estado e do igualitarismo estariam sentados no banco dos réus para serem julgados pelos violentos ataques aos direitos, às liberdades e às diferenças dos cidadãos…

Mas voltando ao Estado social…

(…) não podemos falar já do Estado social, sem equacionarmos o modelo de Estado em que acreditamos. Essa é uma armadilha para que a esquerda sistematicamente nos empurra, sempre que queremos falar deste assunto. Temos de nos entender sobre esta matéria. No tal documento “Os Valores Políticos da Nova Democracia” definimos o Estado como algo de útil e necessário. Útil e necessário ao Homem, claro está. Se o Homem criou o Estado foi para que este o servisse, não para o servir. Esta verdade tão simples é sistematicamente esquecida e em nome desse esquecimento regista-se uma adulteração do papel que foi destinado ao Estado desde que foi concebido.

- É preciso debater o modelo de Estado em que acreditamos -

Que modelo entende então para o Estado?

Defendo um Estado forte capaz de distinguir, sem ambiguidades, as funções que lhe cabem e que não podem ser desempenhadas por particulares, sejam cidadãos ou empresas, como a Justiça, a Defesa, a Segurança e a conservação do Território; das funções subsidiárias que deve desenvolver para que os cidadãos tenham igual dignidade e iguais oportunidades.

Cabe então na função subsidiária, aquilo a que muitos chamam Estado social?

Sem dúvida. Para que os que são efectivamente pobres tenham total oportunidade para o deixarem de ser. Esta questão é crucial. A esquerda quer acabar com a classe média e com os ricos, para justificar a existência do Estado social; eu quero dar combate à pobreza, incentivar à ideia de que devemos viver melhor, para que o Estado social não seja necessário. A subsidiariedade é aliada da liberdade individual, o Estado social é vassalo do socialismo.

- A diarreia legislativa prejudica o Estado de direito -

Não acha que as pessoas só vão entender o que acaba de dizer, quando puderem analisar propostas concretas…

Esse empreendedorismo da proposta tem levado a uma diarreia legislativa, que é tão grave para o Estado de direito, quanto a ausência de regras claras e simples. Eu entendo que o primeiro combate da direita moderna passa por desmistificar conceitos, contrariar expressões, destruir tabus, que se erguem como vacas sagradas no discurso político português. Isto implica um combate ideológico. Esse combate ideológico é tão oportuno, quanto indispensável. Sem combate ideológico que venha a sustentar as propostas, nada feito. A esquerda e os seus aliados do sistema serão sempre ganhadores, ganhe quem ganhar as eleições. E esses aliados também estão no PSD e no CDS.

Acha então que o combate tal como tem vindo a ser desenvolvido está errado?

Totalmente errado! É por isso que a direita deveria promover uma discussão aberta, sem qualquer tipo de receio, sobre o significado e alcance, hoje, de conceitos como: Estado social; igualdade; solidariedade; contratação colectiva; gratuitidade; impostos progressivos; habitação social; globalização; liberdade política; liberdade económica; propriedade privada; empresa; lucro; riqueza….

E o que conta ganhar com tal debate?

Uma clarificação sobre o conteúdo de cada uma das expressões, hoje no século XXI. A política tem de ser clara, para que saibamos onde votamos, em quem votamos e qual o sentido preciso do nosso voto. A ausência deste debate leva a que os cidadãos se sintam sistematicamente defraudados independentemente de votarem mais à “esquerda” ou mais à “direita”.

Porque sentem que é tudo igual..

Ora nem mais. Percebem depois do voto que tudo é mais do mesmo, apesar dos estilos, das imagens televisivas, dos discursos. Sem um debate ideológico prévio e atempado, não existe a possibilidade de criação de alternativas.

- Há hoje um novo contrato social -

Pensa encontrar muita gente disponível para esse debate?

Francamente ainda não. Este debate é tão incómodo para a esquerda, como para o PSD e o CDS. Se quiser ele é ainda incómodo para um significativo conjunto de pessoas, que embora apregoem o liberalismo são prisioneiros de luxo do Estado que tanto criticam. No fundo estes beneficiários do “novo contrato social” não estão minimamente interessados na mudança apesar de dizerem o contrário. Convencionam com o Estado as críticas públicas que lhe vão fazer, para de seguida com ele contratarem ajudas, subsídios, isenções ou benefícios fiscais, apoios, etc, etc.

- As Pescas, as Florestas e o Interior são prioridades nacionais -

Mudemos agora um pouco de assunto, para falarmos das suas mais recentes incursões no mundo das Pescas e nos Concelhos do Interior. Porquê esta aposta?

Porque defender as Pescas e lutar pelo desenvolvimento do Interior é conseguir ter um País mais rico. É tão simples quanto isto. As Pescas são um sector estratégico da nossa actividade económica e o Interior é o garante do equilíbrio nacional. Não entender isto é não entender Portugal. Tudo o mais que eu pudesse dizer não alteraria em nada o pensamento que lhe acabo de expor e por isso as Pescas, a Floresta e o desenvolvimento do Interior têm de ser causas políticas da Direita portuguesa.

O que significa que é manifestamente contra as actuais políticas do governo?

Com certeza, completamente contra, desde logo porque revelam autismo e falta de visão. Nós deveríamos ter, neste momento, uma política de repovoamento do interior e não uma política que convoca os cidadãos que ainda lá vivem a procurar o litoral. Quem assim procede, mesmo que de quando em vez evoque amor pelo interior, revela uma grande hipocrisia e um total falta de patriotismo.

Estamos a caminhar para o fim da nossa conversa, mas há ainda algumas perguntas que gostaríamos de lhe colocar.

Muito bem…

- A Constituição é um entrave à consolidação da democracia -

Pensa que a democracia em Portugal está consolidada?

Não, enquanto a actual Constituição estiver em vigor. Enquanto a chamada lei fundamental não for um denominador comum de todos os portugueses, sem excepção, não haverá verdadeira democracia. Desde logo porque a possibilidade dos partidos concorrentes, e dos que ganham as eleições, assumirem de facto o que são está posta em causa.

Essa é então a razão da proposta de uma Nova Constituição feita pela Nova Democracia?

Essa é efectivamente a razão de ser de uma proposta para uma Nova Constituição e não apenas de uma revisão, ainda que alargada, do actual texto constitucional.

Já falamos há pouco dos Estados Gerais da Direita que quer realizar. O que pretende com tal realização?

O que pretendo em primeiro lugar é que a direita, e quantos se reivindicam como tal, se confronte a si própria e que o faça antes das eleições.

O Prof. Marcello Rebelo de Sousa pensa que esse debate a tanto tempo de um acto eleitoral é um erro….

O Prof. Marcello Rebelo de Sousa não tem razão. A minha proposta não visa encontrar um programa eleitoral ou de governo; a minha proposta visa esclarecer o que é ser de Direita no Portugal do Século XXI. Primeiro as Ideias, depois a Política, só depois as Políticas ou seja as propostas. Eu pergunto: o Prof. Marcello é de direita? E se é que isso quer dizer? É assim tão difícil responder a estas perguntas?

- Os conservadores liberais são patriotas e universalistas -

Quem vai convidar a participar nesses Estados Gerais? Não corre o risco de só lá estarem pessoas da Nova Democracia?

Tenciono convidar pessoas que afirmam não ser de esquerda, mas não quero estar prisioneiro nem do mediatismo dos convidados, nem da quantidade das respostas de quantos entendam dizer presente. Estará lá quem queira participar. Sem dramas, sem pressões, sem segundas ou terceiras leituras….

Agora sim, mesmo para terminar: o que quer dizer conservador liberal? Nós estamos habituados a ouvir falar em conservadores, em liberais, em conservadores e liberais, mas em conservadores liberais não. É apenas uma questão semântica?

O meu amigo Diogo Pacheco de Amorim explicou há dias o que é ser conservador liberal. Fê-lo, na minha opinião, de uma forma brilhante quando se referiu ao casamento entre a tradição e a inovação. Tradição e inovação, num País com as nossas características. Os conservadores liberais portugueses são patriotas, são universalistas e são amantes da liberdade. São – no tal como o foram os homens das descobertas que deram a conhecer Portugal ao mundo e trouxeram o mundo até a Portugal. Nem só conservadores, nem só liberais. Por isso mesmo Conservadores Liberais.

Carta Do Direito Fundamental À Diferença

CARTA DO DIREITO FUNDAMENTAL À DIFERENÇA


1. Liberdade, Fraternidade, Diferença

Se há direito humano fundamental que os últimos duzentos e cinquenta anos têm progressivamente lançado no esquecimento, esse é o Direito à Diferença.
A Revolução Francesa escolheu por lema Liberdade, Fraternidade, Igualdade. A igualdade vinha em último lugar.

Apesar disso, o jacobinismo global nascido dessa revolução rapidamente esqueceu a Liberdade e a Fraternidade.

Quanto ao marxismo, que dominou largamente todo o século XX e que ainda hoje se encontra, subrepticiamente, presente na generalidade da teoria e da prática políticas, tentou, esmagando a Liberdade e a Fraternidade, impor a Igualdade. Milhões e milhões de mortos depois, os homens continuam diferentes.

E ainda bem que assim é.

A História política, económica e social dos últimos duzentos e cinquenta anos resume-se à progressiva ditadura do pensamento único igualitário em prejuízo da Liberdade exigível e da Fraternidade possível. Porque se a versão hard, pura e dura, do marxismo-leninismo é o hoje meramente residual, as suas várias versões soft continuam dominantes.

Só voltaremos a ser livres, verdadeira e fundamentalmente livres, quando entendermos, na sua essência e nas suas consequências, a escravidão sofisticada em que a filosofia e as políticas igualitárias nos têm vindo, insensível mas tenazmente, a mergulhar.

O respeito pela diferença é condição essencial ao respeito pela liberdade.

Quanto à fraternidade, é um sentimento apenas possível entre homens livres. E só há homens livres quando há respeito total pela sua diferença.

Contra a Esquerda e contra a velha Direita jacobina, a Direita moderna escolhe por lema Liberdade, Fraternidade, Diferença. Liberdade real e não liberdade formal; fraternidade consentida e não solidariedade forçada; diferença em liberdade e não uma igualdade apenas possível sob tutela permanente, ou seja, em escravidão.

2. As doutrinas igualitárias e o papel do Estado

A doutrina igualitária mais virulenta, subjacente aos regimes marxistas puros e duros, distribuía ao Estado o papel de “grande igualizador”. Os homens teriam de ser iguais “a bem ou a mal”: apropriação pelo Estado dos meios de produção, colocando um fim às desigualdades económicas; educação, desde a mais tenra infância, sob tutela do Estado, para pôr um fim às desigualdades culturais geradas pela educação no seio de famílias com tradições diferentes; implosão – ou explosão - das nações no grande big bang do internacionalismo proletário; formatação única das culturas e das civilizações pelo modelo único da utopia da sociedade sem classes, deram o resultado de todos conhecidos: porque cada homem é, intrinsecamente, distinto de qualquer outro, o resultado desta tentativa foi só um: o nivelamento pela morte de incontáveis milhões de homens na igualdade geométrica dos cemitérios. Quanto aos sobreviventes, esses continuaram diferentes. E conseguiram pôr um fim, ainda que a custo, ao caminho para o abismo.

Mas o velho igualitarismo jacobino foi retomado em versões menos virulentas, e é nessas versões que ainda hoje domina em parte substancial do mundo, nomeadamente entre nós, funcionando como base das teses e das práticas políticas dos partidos ditos socialistas e/ou sociais-democratas e, em parte, dos partidos democrata-cristãos. Destas teses, vertidas em programas políticos por todo o lado idênticos, e entre si sem diferenças de substância, fazem parte inúmeras medidas, todas elas tendentes a criar uma igualdade artificial. Entre elas há, apenas, diferenças de grau, na medida em que umas acentuam a necessidade de o Estado criar, essencialmente, condições de igualdade “à partida”, enquanto que outras estendem essa missão do Estado a uma permanente intervenção para que as condições de igualdade supostamente criadas à partida se vão mantendo ao longo da vida.

Parte substancial das políticas sectoriais defendidas por esses partidos são informadas por esse desígnio como uma rápida análise, mesmo superficial, rapidamente nos poderá mostrar. Citamos, de seguida, apenas algumas, a título de exemplo

3. Como tentar fabricar a Igualdade

Como medida tradicionalmente defendida e aceite para nivelar os homens “à partida” temos a de o Estado se assumir como prestador de serviços de educação gratuitos e universais. Não interditando a existência de um ensino privado, dificulta-o quer colocando sucessivas barreiras burocráticas à sua existência e desenvolvimento, quer não participando nos seus custos para os pais. É esta uma forma, “soft” mas eficaz, de retirar a tutela da educação dos filhos aos seus pais. Como medidas complementares temos a impossibilidade dos pais, não dotados de capacidade financeira para colocar os filhos em Escolas privadas, poderem optar pela escola pública da sua preferência, como a impossibilidade das escolas públicas escolherem livremente o seu corpo docente.

Várias são as medidas usadas para, através de uma acção permanente do Estado, tentar manter uma igualdade, sempre fictícia. São as mais usuais:

a) O imposto progressivo, tentando nivelar os rendimentos e penalizando quem mais riqueza cria para a comunidade. A Direita moderna defende uma taxa única.
b) O imposto sucessório, ainda hoje de taxa elevada em muitos países, utilizado com o mesmo fim do imposto progressivo, que a Direita moderna não aceita uma vez que penaliza, de facto, a liberdade de cada um dispor, como entender, aquilo que é seu.
c) A falta de liberdade de testar de quem tem descendentes: os pais não podem optar por deixar os seus bens ao filho ou filhos que entenderam, caso pretendam fazê-lo, ou optar por não testarem a favor do filho ou filhos. É uma forma artificial de igualitarização. Entendemos ser isso intolerável e defendemos a total liberdade de testar.
d) A progressão em carreiras por mera antiguidade, independentemente do mérito, dos resultados e da capacidade demonstrada. É uma forma de uniformização e de tratar por igual o que é diferente, que não é aceitável
e) A uniformização dos salários segundo o lema “a trabalho igual salário igual”, independentemente também do mérito, dos resultados e da capacidade demonstrada
f) A infinidade de limites jurídicos à fundamental liberdade de contratar entre partes, a pretexto de defesa “da parte mais fraca”. A liberdade de contratar entre partes é essencial para que possam ser consagradas, de forma diferente, situações diferentes.

Muitas outras situações existem, retiradas do dia a dia e consagradas na generalidade dos programas políticos, tendentes a criar uma igualdade artificial e, como tal, lesivas de um são desenvolvimento de uma sociedade de homens livres e diferentes

4. A única igualdade desejável para a Direita Moderna

O Homem surge, para a Direita moderna, como princípio e fim de toda a acção política. Este Homem, tal qual nós o entendemos, encontra, como pedra angular da sua estrutura - como homem e como cidadão - um binómio de valores entre si indissociáveis: Liberdade e Responsabilidade. E é sobre este binómio liberdade/responsabilidade que assenta, ou terá de assentar, a sua dignidade do homem.

Todos os homens deverão ser iguais em Dignidade. Mas apenas o serão se a todos for concedida a mais larga liberdade e exigida a total responsabilidade na utilização dessa liberdade. O fundamento último da dignidade humana encontra-se na liberdade e no uso responsável dessa liberdade.

A única igualdade que qualquer Estado tem a obrigação de promover, e a única que lhe deve ser permitido promover, é a igualdade em dignidade de todos os seus cidadãos. Mas, para isso, esse Estado terá de ser entendido e terá de se assumir, como garante máximo e último quer da liberdade de todos e de cada um desses cidadãos quer, perante cada um dos cidadãos, do uso responsável dessa liberdade por parte de todos os outros.

Para além disto ao Estado competirá apenas neste campo, e pelo contrário, garantir um espaço de autonomia a todos e a cada um dos cidadãos para que possam desenvolver, em liberdade e sem interferências ilegítimas, as suas personalidades e potencialidades.

5. Elogio da Diferença

Qualquer homem é único e irrepetível. E, sendo único e irrepetível, é diferente de qualquer outro. Não há dois homens iguais. A evolução das ciências da natureza nos últimos cem anos – e das ciências sociais que nas ciências da natureza se fundamentam – não tem feito mais do que confirmar a perfeita validade desta afirmação. Da mecânica quântica à psicologia evolutiva, passando pela biologia, pela etologia e pela genética, todas sublinham que a vida se estrutura sobre a diversidade, que a evolução se estrutura sobre graus de complexidade crescente e que a homogeneidade, a indiferenciação e a massificação são sintomas de uma irrecuperável entropia nos sistemas vivos, ou, dito de forma mais corrente, são degenerativas e preludiam a morte. Contudo, a estrutura organizativa vigente das sociedades e dos Estados contemporâneos continua assente em pressupostos diametralmente opostos, ou seja, as da incipiente e primária ciência do século das luzes.

O relativismo pós-moderno pode negar à vontade a validade intrínseca das ciências da natureza. Mas não é por isso que a realidade deixa de ser o que é. E a realidade é esta: cada homem recebe um património genético que é único; nasce integrado em famílias diferentes, que por sua vez se integram em comunidades mais alargadas, elas próprias com características que lhes são próprias, as nações. Por sua vez as nações, entre si diversas, radicam em civilizações, umas das outras distintas.

E, também aqui, é bom que assim seja, porque é a diversidade dos homens, das famílias, das nações e das civilizações que se encontra na base da evolução e do progresso. É tanto da conflitualidade como da complementaridade entre esses homens e essas comunidades sucessivamente mais alargadas que surge a inovação. A Diferença é, e sempre foi, criadora. Um mundo de homens exactamente iguais, a poder ser construído, seria um mundo logo estagnado, em breve condenado ao retrocesso e, a prazo, ao desaparecimento. A diferença entre os homens é o motor da História. E daqui directamente decorre que defendamos uma euro-integração contra uma euro-diluição, como defendemos um mundo globalizado contra um mundo massificado


6. Euro-integração versus Euro-diluição

A Europa, ela própria nascida da fusão entre duas tradições que se complementaram, a greco-romana e a judaico-cristã, foi grande enquanto as suas nações foram diversas e cultivaram a sua diversidade, fonte de conflitualidade e de tensão, mas também de complementaridade e de criação. Havia que diminuir a conflitualidade, e por isso a importância de uma integração que limasse arestas e permitisse a participação de todas as nações num projecto de contornos mais bem definidos, obedecendo a regras básicas, poucas mas claras; mas há que manter a complementaridade, logo o essencial da diferença das nações e dos homens que a integram. Mas integração não é, nem pode ser, diluição de todas as nações europeias, e de todos os seus cidadãos, numa solução aquosa e indistinta de europeus padronizados e todos iguais. É em nome do respeito pela diferença dos homens e dos povos, e pela identidade da Europa, que recusamos essa euro-diluição. Uma verdadeira integração, poderá levar a Europa a inverter o caminho da sua decadência. Mas uma diluição de todos em todos e de tudo em tudo, apenas poderá acelerar e tornar irreversível esse mesmo caminho

7. Globalização versus Massificação

O conceito de um mundo globalizado, na nossa opinião, pressupõe um mundo de homens diferentes, interagindo, e não um mundo de homens massificados, todos pobres numa irremediável igualdade, incapazes de trazer um contributo original e inovador. Um mundo globalizado é a vida. Um mundo massificado é a morte.
Se a globalização for entendida como um método global de nivelamento e de indiferenciação progressiva dos homens, das nações e das culturas, a Direita moderna é contra a globalização. Mas se ela representar, como até agora tem acontecido, uma maior e mais criativa interacção entre homens e culturas distintas, cada uma trazendo, na sua diferença, um contributo único e irrepetível, a Direita moderna é a favor dessa globalização. Os homens, as culturas e as nações não se podem encerrar em si próprias, mas devem-se abrir ao mundo na sua irrepetibilidade e na sua diferença; como não se podem apagar num melting pot global e indiferenciado.

O respeito pela Diferença é condição essencial ao exercício da Liberdade. E a Liberdade é condição básica de humanidade. Não pode haver acção política que não respeite a liberdade, porque seria uma acção política contra a essência do Homem que é, para a Direita Moderna, o alfa e o ómega de toda a acção política.
É esta a razão de uma Carta do Direito Fundamental à Diferença.


Teses Sobre A Direita Conservadora E Liberal

…Em Portugal, quer a tradição de Direita como a de Esquerda são seguramente anti-liberais …

Do meu contacto, através da imprensa escrita e falada, a ideia com que fico, é que não “aparece” uma clara linha divisória entre o que é a Direita Conservadora Liberal e as outras forças políticas, inclusive a Social-Democracia e a Direita não-Liberal. Em geral, a própria Esquerda e a Social-Democracia olham a Direita Conservadora Liberal como se de uma “qualquer” Direita se tratasse.

Em Portugal, quer a tradição de Direita como a de Esquerda são seguramente anti-liberais; idêntica, em geral, à tradição da Europa Continental, com excepção dos países do norte da Europa.


Os países do norte da Europa possuem uma tradição cultural muito particular; sustentada numa forte tradição cooperativa, numa tradição de responsabilidade individual muito forte, na qual predomina um sistema educativo centrado no educando (e não no educador) e numa monarquia “fraca” (não centralizadora) face à sociedade civil. Tudo isso acabou por dar origem, em meados do século XX, a uma estrutura e a uma praxis político-social que poderíamos caracterizar de próxima de uma esquerda de tipo liberal. O Estado é muito mais a representação de uma sociedade em cujo seio predominam relações sociais de cooperação do que a representação de algum tipo de corporação (política, social ou económica) que chama a si a governação da sociedade civil (dos “outros”), como parece surgir em outros países europeus. O Estado serve a sociedade civil e não ao contrário, e a forma como as elites políticas se assumem (sua remuneração e mordomias, seu comportamento social, etc.) revelam bem as diferenças com muitas das elites políticas europeias (nomeadamente, de como estas tratam o erário público).

O anti-liberalismo impregna o pensamento político e a praxis dos europeus, com a excepção dos anglo-saxónicos e dos povos do norte da Europa.

Por exemplo, embora só tenha tido acesso ao que veio a público nos órgãos de comunicação, o recente “Compromisso Portugal” revela muito mais sobre os princípios e teses dessa Direita Anti-Liberal do que sobre os princípios da Direita Conservadora Liberal; embora muitos deles possam ser abraçados por esta.
Também, o recente debate promovido pelo Dr. Sampaio sobre a necessidade de uma maior participação dos portugueses na sociedade, conseguiu não tocar nunca nos motivos que levam os portugueses a ser (conduzir-se como) cidadãos passivos. A tradição anti-liberal de estado e da sociedade portuguesa é tão intrínseca ao “nosso” pensamento e à “nossa” maneira de ser, que se fica incapaz de “ver” que é o próprio enquadramento conceptual e a forma de pensar um dado problema que está na sua própria origem.

A afirmação da Direita Conservadora Liberal passa pela definição (“criação”) de uma linha divisória com os “outros” e, em particular, com a Direita não-liberal (já que a Esquerda, em Portugal, sempre foi anti-liberal) – essa linha de demarcação, face aos “outros”, parece-me poder ser mais claramente definida na dicotomia entre liberalismo e anti-liberalismo, entre cidadania e anti ou não cidadania, do que na dicotomia existente entre Direita e Esquerda.

É no âmbito da clarificação do que separa a Direita Conservadora Liberal das “outras” perspectivas políticas de Direita e de Esquerda que se inscreve este Contributo. Ele limita-se a delinear algumas linhas de reflexão e de debate, quer relativamente a um possível programa de intervenção da Direita Conservadora Liberal quer quanto à prioridade dos temas a debater.


Sobre a Estratégia

Para o estabelecimento de uma estratégia de intervenção política, é essencial definir os objectivos a atingir e o tempo para os alcançar.

Quanto aos objectivos, parece-me que a Direita Conservadora Liberal, em primeiro lugar, pretende que o País se aproxime e se assuma política, social e culturalmente naquilo que constitui o quadro societário que a Direita Conservadora Liberal defende como o melhor para a sociedade portuguesa. Em segundo lugar, pretende poder assumir um papel importante nesse processo de transformação social, inclusive através da sua participação directa na governação do País.

Quanto ao tempo, parece-me que a Direita Conservadora Liberal não tem quaisquer hipóteses de ascender à governação do País ou dela participar, durante ainda vários mandatos.

Não creio mesmo que seja de seu interesse que isso ocorra, se não puder fazer passar um programa consentâneo com as suas Teses.

Ou seja, o desenvolvimento de acções políticas para chamar atenção sobre si, sem que estas suportem “continuidade”, acaba por representar um esforço algo inconsequente, e até contra producente (se, por exemplo, de algum modo se “colar” a si uma imagem, e até um “rótulo”, deformador do que realmente é a Direita Conservadora Liberal).

Parece-me que a Direita Conservadora Liberal tem necessidade de criar um espaço social próprio e o seu crescimento (e influência) efectuar-se-á à medida e conforme esse espaço social for também crescendo.

Segundo a minha opinião o primeiro grande objectivo da Direita Conservadora Liberal deveria ser criar um espaço social que a oiça e que repercuta as suas ideias a um espaço mais vasto. Essa “primeira” apresentação deveria dirigir-se a quem a “pense”, considerando que há concepções confusas, e até incorrectas, sobre o que é a Direita Conservadora Liberal e considerando que esta transporta em si “ideias de ruptura” face ao que é a tradição política portuguesa.

As elites intelectuais deveriam constituir a primeira prioridade para essa apresentação. Como se trata de elites e de intelectuais, eles mesmo se encarregarão de “ajudar” a Direita Conservadora Liberal na criação de um espaço social próprio de “massa” aonde esta poderá intervir mais tarde; mas mais …, com as suas questões, ajudarão a própria Direita Conservadora Liberal a aprofundar o seu próprio pensamento e a ajustar as suas Teses aos particularismos e especificidades da realidade social nacional.

Em segundo lugar, parece-me que essas “primeiras” Teses deveriam incidir preferencialmente sobre o que distingue claramente a Direita Conservadora Liberal de “todos” os outros partidos portugueses.

Há poucas dúvidas, quanto à distinção entre a Direita e a Esquerda. Mas o mesmo não ocorre entre a Direita Conservadora Liberal e a Direita não-liberal. Como acima afirmámos, a tradição portuguesa de Direita é a da Direita Não Liberal, pelo que quando os portugueses ouvem falar de “Direita” (tenha ela associado ou não, no seu nome, algum “popular”), o que “vêem” é essa direita tradicional: uma Direita Anti-Liberal.

Ora a Direita Conservadora Liberal distingue-se precisamente da direita tradicional portuguesa porque é Liberal (já que a direita anti-liberal portuguesa também é conservadora). É na compreensão e divulgação do que significa Liberal e das suas implicações sobre a praxis social e política que a Direita Conservadora Liberal se pode afirmar, quer como uma concepção política inovadora (em Portugal), quer como um novo Partido.

Em terceiro lugar, parece-me que a “compreensão” de quaisquer Teses de tipo político-social dificilmente se pode estruturar, numa primeira fase, sobre um plano de pensamento abstracto, a não ser que se dirija essencialmente a um mundo académico, de especialistas, o que não é inteiramente o caso.

Com isso pretendo dizer que as Teses a apresentar deveriam estabelecer-se em confronto directo com a realidade social portuguesa concreta (a que é o resultado concreto de uma governação anti-liberal, mais ou menos próxima da Esquerda). A partir daí, poder-se-ia deslocar para um plano de abstracção maior, em conformidade com as “perguntas”, que inevitavelmente irão surgir – o meio intelectual, aonde o debate se iniciará, irá com certeza “solicitar” uma conceptualização mais elaborada do que o simples confronto com a praxis.

A comparação com o comunismo, embora importante, parece-me que hoje “toca” já pouco aos portugueses; a nossa realidade social, resultado de governações marcadamente anti-liberais, constitui um referencial bastante mais objectivo, concreto e de fácil entendimento, para a definição do que é a Direita Conservadora Liberal. Note-se que sob o ponto de vista da Direita Conservadora Liberal (e, diga-se, para os portugueses) não há diferença entre a governação do PS e a do PSD.

Deste modo, marca-se também a linha que separa as suas Teses e a política “real” desenvolvida pelos “partidos de governo” em Portugal (de tipo centrão, inspirados na social democracia e na esquerda democrática, ambas marcadamente anti-liberais).

Em quarto lugar, a Direita Conservadora Liberal deveria reservar um espaço especial de diálogo com as Religiões, em particular com a Igreja Católica, uma vez que há pontos de confluência significativos, e as Religiões representam e simbolizam Valores Éticos e Praxis Sociais que, ao longo dos séculos, foram “formatando” a nossa “cultura ocidental” e dando coesão social às nossas sociedades.

Em quinto lugar, parece-me que as “primeiras” Teses deveriam focar-se naquilo que são as divergências de princípios entre a Direita Conservadora Liberal e as políticas “reais” dos “partidos de governo”.

Sem fazer entender o espírito da Direita Conservadora Liberal pode tornar-se perigoso o que “se apanha” aqui ou acolá sobre a sua posição relativamente a questões menores (embora importantes) da sociedade portuguesa – por exemplo, não me parece eficaz que a Direita Conservadora Liberal deva “correr” atrás de “casos de minoria”, como caracteristicamente faz o Bloco de Esquerda e o CDS e, muitas vezes, os restantes partidos.

Finalmente, e em sexto lugar, a Direita Conservadora Liberal poderia constituir-se como centro de promoção e de incentivo de iniciativas civis (políticas, sociais e económicas), que constituam práticas que ampliem a capacidade de exercício da cidadania em Portugal e sejam exemplo de intervenção social liberal.


Sobre o Programa

Dado que é o anti-liberalismo que caracteriza a Direita e a Esquerda tradicionais e o centrão político português, parece-me que as primeiras Teses a desenvolver e a debater, pela Direita Conservadora Liberal, deveriam circunscrever-se essencialmente àquilo que distingue o liberalismo do anti-liberalismo.

Como a diferença entre liberalismo e anti-liberalismo se situa na maior ou menor capacidade de exercício da cidadania, ou mesmo na sua ausência ou bloqueio, as Teses primeiras deveriam centrar-se em torno da cidadania e da não-cidadania, e em torno da forma como o estado e a actual organização societária portuguesa são fonte de bloqueio à cidadania.

Considerando, como Tese primeira, o enfoque na Cidadania, os temas a abordar deveriam desenvolver-se em torno da concepção do poder do estado, do estado e administração pública, dos impostos e do exercício da cidadania em si, uma vez que é aí que se estrutura politicamente a possibilidade de exercício da Cidadania numa Nação.

Dentro do quadro acima referido, parece-me que as “primeiras” Teses a desenvolver e a apresentar, deveriam centrar-se sobre as “causas” dos principais problemas do País que, claramente, constituem formas de organização social opostas às Teses defendidas pela Direita Conservadora Liberal, ou seja constituem fonte de bloqueio ao exercício da cidadania.

Como acima já refiro, não procurarei ser exaustivo (nem o conseguiria ser), mas apenas apontar “linhas temáticas” de reflexão e de debate (divulgação).


A – A organização do estado

1º- A primeira grande diferença (e fonte de clivagem) entre uma concepção liberal e anti-liberal (quer à Direita como à Esquerda) é a inexistência de cidadania em Portugal, provocada por uma organização do poder de estado que bloqueia essa cidadania à maioria e a torna quase exclusiva de quem “vive” no estado, com e sob o estado.

Esse carácter discricionário do direito de cidadania, e a ineficiência e “abusos” daí resultantes, são mais que muitos para poderem fundamentar e justificar a Tese fundamental da Direita Conservadora Liberal: o “direito à cidadania”.

Eventualmente, isso obrigará a “reintroduzir” o debate em Portugal sobre o que é cidadania.

Em Portugal está muito divulgado um conceito “errado” de cidadania, um conceito “ajustado”, convenientemente, ao carácter anti-liberal da sociedade existente, já que se restringe a alguns direitos passivos de cidadania (como a liberdade de imprensa e o “direito ao protesto”) e, se confunde, frequentemente, cidadania com boa educação, civismo, solidariedade social, igualdade, obediência passiva ao estado, etc.

Habitualmente, eu respondo à pergunta “o que é cidadania?” (que me é colocada frequentemente) começando por definir o conceito do que lhe é oposto; ou seja, o que significa a “não-cidadania”.

Essa resposta dá, pela negativa a resposta ao que é a cidadania e claramente se denota que o que, em Portugal, se designa, habitualmente, de cidadania são algumas, poucas, consequências possíveis do exercício do direito de cidadania, mas não são, em si, cidadania.

O carácter anti-cidadania e, como tal, anti-liberal do estado português, estão bem patenteados na própria forma de organização central do estado e das autarquias, bem como na concepção e na forma de intervenção da administração pública portuguesa.

2º- Portugal possui um Poder de Estado estruturado num Legislativo e num Executivo cuja promiscuidade anulou a separação efectiva entre esses dois poderes e, consequentemente, anulou a subordinação legislativa do Executivo ao Legislativo e o controlo deste sobre aquele. O Executivo Português é um Executivo “não limitado”, já que o Chefe do Executivo é realmente, na prática, o Chefe do Legislativo.

A replicação desta concepção a nível local e regional, significa que o estado, no seu todo, possui um poder ilimitado e incontrolável – como o estado não é um conceito abstracto mas sim concreto, porque assumido por “pessoas organizadas”, então o poder do estado acaba por cair de forma ilimitada nas mãos de “alguns” (objectivamente, de quem controla os partidos).

Isso não significa que não haja em todo o sistema alguma democraticidade, contudo ela é manifestamente insuficiente e perigosa, uma vez que os mecanismos internos de equilíbrio de poder não conseguem operar.

3º- A forma de votação constitui outro tipo de bloqueio ao exercício da cidadania.
A votação em listas eleitorais, impedindo uma relação directa entre o votante e o votado, impede o desenvolvimento do sentido de responsabilidade e de representação entre o votado e o votante e impede-o de exigir responsabilidades ao votado (“seu” representante). De facto, a única responsabilidade que se desenvolve, no sistema eleitoral português, é entre o votado e o chefe político que o integrou na respectiva lista eleitoral; é a este que tem de prestar contas e não ao “seu” votante (a quem se diz “representar”).

A quase impossibilidade legal de apresentação de independentes às eleições, constitui outro grave constrangimento ao exercício de uma cidadania activa e centra nos partidos o único caminho de acesso ao poder político (ou seja, à representatividade dos cidadãos no estado).

4º- De facto, o sistema de votação existente acaba por não ser ainda menos democrático, porque os cidadãos estão amarrados à vontade prévia dos chefes partidários e não a um escrutínio prévio, entre cada cidadão e os seus eventuais representantes. Como a escolha dos propostos às eleições se faz exclusivamente sobre essa vontade prévia, realmente a democraticidade conseguida pela ulterior decisão dos cidadãos, em votação universal, acaba por ser profundamente condicionada.

Realmente, a democraticidade de um tal sistema ainda é obscurecida pelo facto de ser duvidosa a própria democracia no seio dos partidos.

A forma de organização interna dos partidos deveria ser objecto de debate público.
Por exemplo, não me parece que a forma segundo a qual um partido se organiza internamente devesse ser inteiramente da livre iniciativa do respectivo partido (por exemplo, se as votações são secretas ou com o braço no ar), uma vez que o processo eleitoral nacional se “inicia” no seio de cada partido.

A dúvida que acabo de proferir relativa à existência dessa “liberdade” no seio de cada partido não é anti-liberal, como pode parecer à primeira vista. A forma como os partidos funcionam internamente é de interesse público, num sistema eleitoral como o português, pois marca decisivamente o carácter mais ou menos democrático do processo que conduz ao Poder do Estado.

O que pretendo salientar é que o exercício do poder público (do poder do estado) tem o seu “início” e a sua “organização” numa esfera que se constitui hoje como “privada e corporativa”; o “início” da definição de quem governará, faz-se no seio dos partidos, em condições que estão muito longe dos olhares e da intervenção pública. Isso não teria significado de maior se, depois, os cidadãos pudessem “dar a volta” ao que foi decidido corporativamente no seio dos partidos; mas, não o podem fazer. Se as alternativas de decisão dos cidadãos são previamente “cozinhada” no seio dos partidos, de facto a governação de Portugal está aí a ser “cozinhada”, sem intervenção e controlo dos cidadãos. Ou seja, em conclusão, a organização interna dos partidos e os procedimentos aí adoptados não deveriam estar ao exclusivo critério dos seus “sócios”, na medida em que é no seu seio que se delineia o Poder Público – a única força coerciva legitimada para “obrigar” os portugueses.

No limite, o sistema político português acaba por ser fortemente permissivo a poderosos grupos políticos e económicos, nacionais e estrangeiros (e, hoje, eles são numerosos e fortemente actuantes), que queiram “investir” na tomada de poder em Portugal, sem que os cidadãos possam fazer absolutamente nada contra isso. Não estou a “brincar”; o exercício do poder de estado é uma questão de segurança nacional e a forma como se ascende ao poder do estado não lhe é, nem nos pode ser, indiferente.

Se associarmos a forma de organização do estado, que o torna um governo “não limitado”, com o tipo de votação existente e o (não) papel de controlo da Assembleia, facilmente se conclui que Portugal não é exemplo de um país democrático (a monarquia inglesa acaba por ser mais republicana que a “república” portuguesa).

Este carácter anti-liberal e anti-cidadania do estado português não se alterou nada depois do 25 de Abril, aliás piorou – o que alterou foi uma forma de solidariedade social que é hoje mais ampla, mas em grande parte porque sustentada na Europa.


B – A economia

A economia portuguesa reflecte naturalmente as consequências de um tal estado:

1º- O desenvolvimento económico do país caiu quase inteiramente nas mãos do estado.

A participação “autónoma” dos cidadãos portugueses no desenvolvimento económico nacional tornou-se marginal (o que não significa que não seja importante).

Como mais de 40% do PIB português caiu nas mãos do estado, pouco sobra para investimento fora do âmbito da sua iniciativa (grande parte do que sobra nas mãos da sociedade civil tem de ser para o consumo, necessário à preservação da vida e à “reprodução” das famílias portuguesa – as poupanças são inexistentes).

Tal situação “amarra” os cidadãos e as empresas privadas ao estado; ou “fazem” com ele, ou não “fazem” com ninguém.

Mas, não contente com isso, o estado português arrebanha para os seus projectos e políticas o que ficou por arrebanhar na sociedade civil. Para tal, “orienta” muito dessa riqueza nacional (sobrante) para os projectos que ele define como importantes à economia nacional ou para os interesses das corporações empresariais a si associados (através de incentivos como subvenções, isenções, facilidades administrativas, co-financiamentos público-privados, financiamentos a fundo perdido, reserva de mercado, etc.).

Por exemplo, a que título “de interesse público”, existe uma lei que isente fiscalmente os lucros de venda de património imobiliário se ele for re-aplicado de novo em património imobiliário?

Parece-me que, contra os interesses nacionais em iniciar um rápido deslocamento do investimento em imobiliária para outros tipos de investimentos mais re-produtivos, pretende-se “amarrar” os cidadãos aos interesses da Imobiliária.

Este é um bom exemplo de como os estados anti-liberais (corporativos) e fortemente interventores e manipuladores da economia nacional, podem cair rápida e facilmente na situação de se tornarem “marionetas” de interesses organizados, estranhos e até opostos do interesse nacional (mesmo se inconscientemente).

Mas tudo isso ainda não lhe bastou! Pouco escapa à esfera dessa administração! O estado português apetrechou-se de uma administração pública que regulamenta “tudo” ao pormenor e intervém inclusive na forma de gestão que o sector privado tem de realizar. O gestor, privado, acaba frequentemente por ser um “administrador para-público”, a quem cabe observar regras administrativas definidas pelo estado e gerir uma carteira de relações com vista a assegurar a “protecção” da sua empresa.

Aliás, a própria propriedade privada é tratada em Portugal com muito pouco respeito; não constitui realmente um absurdo, duvidar se a cultura portuguesa possui um conceito correcto de “propriedade privada” (o mercado do arrendamento é um bom exemplo disso).

A propriedade privada, em Portugal, é frequentemente vista como uma “braço” do estado (que este manipula a seu prazer) e não se constitui propriamente como um direito limitador do poder do estado (não confere direito a cidadania).

Em geral diz-se: “não é crime, o que não está na lei” – subentendo-se, então, que se “pode fazer tudo” desde que se não vá objectivamente contra a lei. Mas, em Portugal, “só se pode fazer o que está na lei”; e pior, só se pode fazer com o estado.


2º- Mesmo aonde poderia haver algum liberalismo económico, como no mercado, o estado intervém nele activamente e, de certo modo, destrói-o, enquanto tal.

Muitos sectores da actividade económica, são sectores condicionados, quer quanto ao acesso a estas actividades quer quanto aos preços aí praticados, assim como quanto à discricionariedade face aos impostos praticados, às isenções concedidas, etc. Poderemos pois concluir, sem “ofender” os economistas, que Portugal não possui verdadeiramente um mercado (eventualmente, poderíamos baptizar esse “mercado português” de “mercado de estado” ou de mercado condicionado).

Porém, à que registar que, quando o estado português podia manipular o valor do escudo a seu bem prazer, o mercado interno ainda era mais fictício.

3º- “Privatizar”, num tal quadro político e económico e num tal “mercado”, está claramente longe de significar aumento de capacidade de exercício de cidadania e de liberalismo.

Trata-se de uma “privatização” que direita anti-liberal adora e a esquerda não tem de ter grande medo (a não ser que se preocupe com a eficiência daí resultante, pois esta será possivelmente pior e, tais serviços, serão ainda mais incontroláveis na mão desses “privados” do que se directamente na mão do estado).

Nas situações em que a “privatização” mantém o estado como responsável pelos pagamentos (às ditas empresas privatizadas) dos serviços por estas prestados aos cidadãos, então estamos perante o que podemos designar de “brincar às privatizações e aos privados”. De facto, esses “privados” nunca se sentem responsáveis perante os cidadãos a quem prestam serviços; sentem-se responsáveis, sim, perante o estado, que é quem lhes paga e lhes assegura que nunca operarão realmente em condições de mercado.

Tal processo não dinamiza o mercado, enquanto espaço de livre iniciativa e de cidadania; apenas transfere a execução de uma responsabilidade, que continua pública, para uma entidade que passou a ser “privada”. Nem mesmo a eficiência económica e social aumentará, porque continuam a não estar “presentes” as condições que a impõem: um verdadeiro mercado.


4º- Em que medida este tipo de “privatizações” e de subvenções (a fundo perdido), suportadas com o dinheiro de todos os cidadãos portugueses (realmente, apenas pelos contribuintes líquidos), constituirão um procedimento de “boa” ética social ao transferir a riqueza criada por muitos portugueses para a mão de alguns?

5º- Neste quadro, só os “estrangeiros” (incluindo a reentrada de capitais nacionais “encobertos” como capital estrangeiro) actuam de forma relativamente liberal, em Portugal, porque se assumem como independentes do estado.

Mas num quadro social com é o português, “eles” rapidamente aprenderam que também podem fazer bom uso a seu favor desse estado: porque não colocar os portugueses a financiá-los e a assumirem o risco? Pois bem, não é raro que o investimento estrangeiro (em oposição aos dos nacionais) só se instale em Portugal com “facilidades” a que raramente têm acesso os investidores nacionais (inclusive, chegam a subordinar-se a legislação específica e não à legislação geral a que os nacionais têm de “obedecer”).

Ou seja, o estado anti-liberal português tem efectivamente procedido de tal forma que acaba (consciente ou inconscientemente) a “transferir” riqueza interna, nacional, para as mãos de investidores estrangeiros, sem garantias efectivas de sustentabilidade e de reprodução interna que compensem tal “sacrifício” nacional. Que haja incentivo ao investimento estrangeiro, entende-se; que esse incentivo seja diferente do que é dado aos nacionais não se entende, mas quando ainda são os nacionais a financiar o investimento estrangeiro a fundo perdido, não se entende em absoluto.


C – A administração

A questão que se coloca a nível da administração não é, por exemplo, torná-la mais eficiente (informatizá-la, por exemplo). Numa tal lógica de estado, tornar a administração mais eficiente, significa aumentar a anti-cidadania e o anti-liberalismo; significa tornar a incompetência mais eficaz e a depredação económica ainda mais rápida.

A administração tem sim de ser colocada ao serviço de outros fins e ser reformulada nesse sentido; tem de ser colocada ao serviço da cidadania e não contra ela.

De certo modo, os “partidos de governo” transformaram a administração pública na sua base eleitoral. Não os preocupa o aumento dos seus efectivos (porque são mais os que votam “ao centrão”), a não ser quando isso coloque em causa o próprio “sistema” que os sustenta – como, aliás, está agora a acontecer.

Contudo, a resposta a esta “crise” (absolutamente inevitável) tem-se norteado pela preservação dessa base de apoio social, pois as contenções orçamentais e uma ou outra medida no sentido do ligar o utilizador ao pagador, apenas têm como objectivo “salvar” o sistema e não corrigi-lo.

Por exemplo, o aumento dos custos de saúde, a pagar pelos cidadãos, representa realmente uma “dupla tributação”, pois os impostos mantêm-se (aliás elevaram-se) e passou-se a ter de pagar mais por serviços que antes eram “gratuitos”.

Os aumentos de impostos e de “mil e uma” taxas só tiveram como fim assegurar a manutenção do nível de despesas já alcançado pelo estado e preservar as suas “funções” e a sua dimensão “redistributiva”, e não estruturar e financiar uma nova concepção do papel do estado na sociedade portuguesa.

Na realidade, esses aumentos só pesaram sobre os “contribuintes líquidos” (que ficaram mais pobres, ainda) e não sobre os “beneficiários líquidos”. Através do aumento de impostos e de uma ou outra contenção de menor importância, estes vêem o seu estatuto (“direitos adquiridos”) e perspectivas preservadas por mais uns anitos (em salários, reformas, mordomias, subvenções, isenções, co-financiamentos, etc.). Tal sistema está pois muitíssimo longe de “dar os anéis para salvar os dedos”; realmente os “contribuintes líquidos” continuam a pagar-lhes os anéis – estes sim, estão a ficar sem os dedos.

Para a Direita Conservadora Liberal, se é mau haver serviços gratuitos universais, é ainda pior obrigar a pagar esses serviços sem haver diminuição de impostos – isso significa, realmente, acréscimo de perda de cidadania e empobrecimento, ambos induzidos pelo estado.

O combate a esta Frente de Beneficiários Líquidos dos Impostos (que associa os sindicatos da administração pública) vai ser das lutas mais difíceis da Direita Conservadora Liberal.

É certo que essa Frente integra apenas verdadeiramente as elites públicas e “protegidas” e não os 700 000 funcionários públicos, que como a sociedade civil “pagam” o sistema.

Contudo, muitos dos representantes desse imenso funcionalismo público “confunde-se” nessa Frente e o “separar de águas” torna-se muito difícil.

É aqui que a Direita Conservadora Liberal se aproxima das posições do PCP e do BE; a reforma de um tal sistema não passa pelo aumento do sacrifício de quem já é desprotegido e paga o sistema.

Se fizermos recurso a conceitos do pensamento político de Esquerda, dir-se-á que está nessa Frente Anti-Liberal o Inimigo Principal da Direita Conservadora Liberal.

Não é possível combatê-la de frente. A Direita Conservadora Liberal, segundo a minha opinião, deveria fugir a esse combate directo sempre que possível; deveria dirigir-se preferencialmente aos cidadãos civis, às não elites públicas e às suas instituições (inclusive à Igreja e ao mundo empresarial independente e consciente dos novos desafios que a globalização transporta), dirigir-se àqueles cujas actividades, pelas suas características, privilegiam o pensamento racional e científico (são independentes) e dirigir-se aos que são “nacionalistas” e patriotas. Só a “minagem” (no sentido positivo) do pensamento anti-liberal da administração pública (em sentido lato), através da divulgação e do debate sobre as nefastas consequências que têm acarretado para o País, inclusive para a sua soberania e para a sua segurança nacional, poderão criar espaço ulterior a uma apresentação mais universal e sustentável do pensamento da Direita Conservadora Liberal.

Isso não significa que se deva fugir a esse confronto; pelo contrário, deve-se realizá-lo com coragem e clareza de pensamento, mas quando a iniciativa ao confronto for “deles” (e sem dúvida que o farão).

No domínio da administração pública é essencial defender não só a diminuição das áreas de intervenção do estado, mas também e simultaneamente, uma desregulamentação global de grande parte das actividades económicas e sociais. É necessário que se retorne ao “não é crime, o que não está na lei”; é necessário dar espaço de iniciativa aos cidadãos, à sua criatividade e à inovação (técnica e social).

Deve ser deixada à livre iniciativa dos cidadãos e ao mercado a contractualização das suas relações. Os portugueses devem poder fazer “tudo”, se não forem contra a lei, e não só poderem fazer o que “está na lei e com o estado”. O estado deve servir a cidadania e protege-la e não se constituir como corporação de interesses (mesmo se abstractos) contra a cidadania. O estado deve constituir-se como expressão da cidadania e intervir nesse sentido.

Por exemplo, no presente estado de intervenção omnipresente da administração pública, o resultado da diminuição de impostos reflectir-se-ia, com certeza, no aumento do consumo e não do investimento privado. Porque acontecerá isso?

Uma das causas, é porque é extremamente difícil implementar qualquer actividade económica em Portugal. Não se trata de formalizar a criação, mais ou menos depressa, de uma empresa, mas sim o ter de “seguir” um esmagador sistema de regras e procedimentos administrativos e praticar uma gestão fortemente “condicionada” e num mercado distorcido pelo próprio estado. Os gestores privados portugueses são mais gestores de relações com o estado do que, verdadeiramente, gestores.

Até os próprios técnicos oficiais de contas estão ao serviço do estado e não das empresas ou dos cidadãos que os contratam – não há um único país liberal em que isso ocorra e, mesmo, nos países anti-liberais isso raramente acontece.

Os relatórios e dados que as empresas privadas têm de apresentar periodicamente às repartições públicas (inclusive, um simples bar ou uma creche) são verdadeiramente assustadores. Aliás, não creio mesmo que tais “montanhas” de dados possam ser tratados pelo estado, apesar de ter tantos funcionários – isso revela que os próprios sistemas de controlo públicos estão mal concebidos.


D – A solidariedade social

A solidariedade social, que opera como justificativo de um tal estado (o legitima) e até de uma administração pública tão pesada e omnipresente, tem de ser combatida pelo carácter de “burla” nacional em que se constituiu.

Essa solidariedade social orienta-se para apoio preferencial à administração pública (integro os políticos profissionais e as empresas públicas neste conceito) e não para servir a todos os portugueses e, muito menos, para transferir riqueza dos mais ricos para os mais pobres.

Compare-se o aumento dos salários médios, nos últimos 10/20/30 anos (por exemplo), da sociedade civil com os da administração pública e das empresas públicas. Compare-se igualmente os salários médios dos quadros de topo aí praticados.

Compare-se os aumentos médios das reformas da administração pública e da sociedade civil.

Compare-se os direitos sociais, em vários domínios, entre uns e outros.

Claramente se verá que estamos perante um embuste; a “solidariedade social” acabou por ser para quem menos precisa e não para os que mais precisam.

Compara-se as despesas internas de muitos órgãos de solidariedade social com o que realmente “redistribuem” e veremos que, frequentemente, se está perante a criação de emprego público “fictício”.

Aliás, seria de admirar que assim não fosse, quando afinal quem “manda” é um estado plenipotenciário e omnipresente, anti-liberal e não condicionado, e sustentado num centrão de votantes concentrados na administração pública.

Não se coloca em dúvida a solidariedade social, como é óbvio. O que se coloca em dúvida é a seriedade e a eficácia de como ela esta a ser efectuada – por vezes parece que o “dinheiro” é visto, por quem o aplica “em nome de todos”, como se “nascesse de árvores” e não como o “suor” dos portugueses.

No fundo, a solidariedade social tem justificado a transferência de riqueza da classe média (que mal a ganha, entrega-a ao estado) para algumas elites e, marginalmente, para apoio a alguma pobreza.

Apesar de tão pesados impostos e taxas dos vários variados tipos, antes do início desta crise, cerca de 2 milhões de portugueses eram classificados como pobres (segundo critérios internos; pelos padrões médios europeus, o número de pobres é bem maior).

Estou convicto que parte significativa da pobreza nacional é criada e fomentada pelo pesado nível de impostos e taxas que caiem sobre todos os portugueses e que, seguidamente, tem de recorrer à dita segurança social.

A troco de quê, pagam tanto os portugueses (segundo as minhas contas, por cada 100 euros, cada cidadão da classe média entrega ao estado entre 65 a 70 euros, ao longo da sua vida)?

A questão não está em “destruir” a solidariedade social; a questão é que a “solidariedade” tem de ser solidariedade e não fonte de privilégios descabidos, face à situação de quem afinal os tem de pagar.

Por outro lado, a ineficácia da solidariedade social está a pesar em toda a economia nacional; todo o “suor” dos portugueses mal aplicado, ou ineficientemente aplicado, impede o seu investimento em objectivos sociais mais úteis e eficazes.


E – O Sistema judicial

Claramente o sistema judicial é uma caricatura do que é a Justiça, do que é o decoro e a ética – e só estou a exprimir aquilo que ouço aos próprios trabalhadores da justiça.

Mas parece-me que mais que actuar sobre o “interior” do sistema judicial, o que é prioritariamente importante é torná-lo independente do Executivo. Não há verdadeiramente democracia sem sistema judicial eficaz e independente.

Os juízes não são funcionários públicos iguais aos outros. Eles simbolizam a ética pública e da sociedade ao mais alto nível, eles asseguram a legitimidade da coação a que o estado (a comunidade) submete todos os cidadãos por igual e, nisso, asseguram a própria coesão social e o “sentido” dessa coesão. De certo modo, eles asseguram e dão corpo à Unidade que deve existir entre o estado e os cidadãos e entre estes – eles legitimam a confiança social que deve existir entre todos numa vida em comunidade (em sociedade).

A Justiça tem de se assumir como garante da aplicação da Lei.

Quando “partidos do governo” chegam ao ponto de propor tribunais específicos para os políticos, não é um “bom” sinal; inclusive, não é um bom sinal para a preservação da coesão social nacional.

Não conheço com profundidade o que ocorre em outros sistemas judiciais, no entanto parece-me que a independência do sistema judicial nacional talvez passe por uma muito maior ligação ao Presidente da República e à Assembleia da República do que ao Executivo, cujo poder é já “incontrolável”

O próprio Orçamento da Justiça e dos órgãos judiciais deveria ser proposto por estes directamente à Assembleia da República e não pelo Executivo.

A Justiça deveria ser merecedora de um amplo debate nacional; muito mais do que de um pacto de regime.


F – A Educação

O que ocorre com a educação em Portugal deveria ser considerado um “genocídio”; não um genocídio físico, mas sim um genocídio de “almas”.

Ante do 25 de Abril, poucas pessoas tinham acesso a um sistema de ensino que, contudo, era um sistema bastante mais competente e eficaz que o actual.

Depois do 25 de Abril, “descobriu-se” que o País não precisava de quadros técnicos de base nem médios, transformou-se todo o ensino até ao 12 ano em ensino não profissional e abriu-se o acesso a todos a todos os níveis de ensino (até universitário, uma vez que os sistemas de acesso permitem a entrada de todos desde que houvesses vagas).

O acesso generalizado ao ensino foi a única medida democrática e pró-liberal que foi tomada.

Rapidamente, “arrependidos” com tal democratização do ensino, parece que se resolveu “voltar atrás”. Como, não podendo já colocar os alunos na “rua”, o que seria politicamente incorrecto (e não dava votos), fez-se descer o ensino a níveis de incompetência inimagináveis e “obrigar” os alunos a frequentarem a escola do local de residência – não fossem os filhos daqueles que nunca tiveram acesso ao ensino, misturar-se com os “seus”!

Passar a ter esta ou aquela “habilitação” deixou de ser função do que se “aprende e sabe” (nem se está interessado nisso) e passou a ser uma questão de se “estar sentado numa sala de aulas” durante uns anos.

É verdade que, nos últimos anos, algumas mudanças importantes têm sido tentadas para “reverter” tal processo.

Mais que a incompetência, ou tão grave como ela, é que hoje grande parte da juventude (e até da sociedade) não prestigia o conhecimento nem tem uma perspectiva adequada do que é conhecimento e rigor científico (tanto nas áreas das ciências físicas como humanas). Obter um diploma é muito mais uma questão política (leis que deixam “passar” de ano) do que de trabalho e conhecimento; ou seja, o próprio “conhecimento” e a sua veracidade cientifica é muito mais uma questão de política do que de competência “para fazer” (é evidente que há excepções, felizmente).

Associado a isso, um sistema de ensino centrado no educador (e não no educando), como ocorre em Portugal, induz não só uma educação que “não ensina” como não educa a “auto-aprendizagem”.

O facto da administração pública continuar tão incompetente e ineficaz apesar de possuir a maior percentagem de licenciados e até de pessoas com o 12 ano, mostra bem o que se andou a “formar”.

Evidentemente, não é lançando mais meios em estruturas “incompetentes” que estas, por si só, se tornam mais competentes.

Haver 40 000 licenciados sem emprego, em Portugal, não me admira; admirar-me-ia é que tivessem emprego. Se pensarmos que esses 40 000 desempregados licenciados foram, em grande parte, encaminhados para Universidades e para os cursos que tiraram, pelo próprio estado português, é de perguntar o que e como foi isso possível e qual a sua responsabilidade para que isso esteja a acontecer.

No fundo, isso acaba por ser um bom (mau) exemplo do que acorre quando o estado “quer ir a todas”; o exemplo dos países comunistas (de sociedades centralmente planificadas) deveria tê-lo evitado, mas não.

As “equivalências” por anos de serviço em equivalências académicas, como as proporcionadas pelos anos de serviço público, é mais um exemplo de que as “habilitações” (diploma) são mais uma questão legislativa do que de estudo e “saber fazer”; que, afinal, o salário que se aufere não depende de competência específica alguma, mas da lei apropriada.

Os concursos públicos, sustentados em exames e curricula, podiam ser fonte de ajustamento de “habilitações” reconhecidas (e isso faz-se nos países anglo-saxónicos – aonde há professores universitários e doutoradas com o 12 ano). Mas fazê-lo por simples acto administrativo, sem alguma ligação ao “saber” e ao “saber fazer” equivalentes, é desprestigiar a “habilitação” e, pior, é considerar que o “saber” correspondente não existe ou não é importante.

A ex-URSS abriu as Universidades aos operários; mas isso durou muito pouco tempo. Rapidamente constataram que o acesso às Universidades tinha de se sustentar em conhecimentos sólidos, que tinham de ser adquiridos no secundário. Os comunistas europeus nunca “brincaram” com a educação e, por isso, estamos hoje tão mal colocados para competir com eles, nesta Europa alargada (o que não ocorreu em Cuba, por exemplo).

O que se passa com a Educação e a Formação Técnico Profissional, em Portugal, é gravíssima. Segundo a minha opinião é o problema mais grave do País; e só não o coloco em primeiro lugar nas preocupações da Direita Conservadora Liberal porque não acredito que um tal estado possa alguma vez resolvê-lo – enquanto o País não for efectivamente democrático e republicano (com os poderes legislativo, executivo e judicial separados e independentes) não creio que possa haver uma resposta eficaz ao problema da Educação.

Os países comunistas europeus fizeram-no, mas numa lógica social que é inaplicável a Portugal.

É verdadeiramente criminoso o que se está a fazer com o futuro dos nossos filhos. Ocupá-los durante os primeiros 25 anos de vida (quando as suas capacidades de aprendizagem são máximas) a fingir que estudam, é criminoso. Sem duvida nenhuma, isto vai-nos “cair em cima”; aliás, já está a cair.

Mais que em tudo o resto, estará aqui a nossa perda de soberania. As elites nacionais (parece que) ainda não entenderam que não estão só a dar um tiro no pé, estão a dá-lo na sua própria cabeça.


Cidadania e Impostos

Segundo a minha opinião é no conceito de Cidadania que está a maior debilidade da sociedade portuguesa, é aqui que mais nos separamos dos Países Desenvolvidos e Democráticos, mesmo daqueles que também possuem um marcado peso de anti-liberalismo.

Estou convicto que questões históricas e culturais fizeram com que os países do norte da Europa (inclusive, a Alemanha) tivessem desenvolvido um sentido de responsabilidade e de participação social do indivíduo muito forte (no qual o protestantismo não terá sido alheio, com certeza).

Em geral, os países pequenos da Europa (Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Suiça, etc.) são países muito mais liberais que os restantes “grandes” países europeus (e daí lhes provem a sua força).

Portugal “seguiu” os “grandes” anti-liberais em vez de ter seguido os “pequenos” liberais. Contudo, segundo a minha opinião, a pequenez do País e da sua população proporcionaram ao estado português que se acabasse por assumir, na prática, ainda mais anti-liberal que os “grandes” países.

O 25 de Abril veio reforçar essa tendência e tradição; em oposição, ao que se passou em Espanha, aonde a iniciativa autonómica, a iniciativa privada (nunca nacionalizada) e a do cidadão nunca permitiram que o estado central assumisse, em Espanha, o poder incontestável, plenipotenciário e omnipresente que adquiriu em Portugal.

As autarquias representam alguma “afronta” ao estado central, em Portugal, mas replicam, elas mesmo, uma concepção tão ou mais anti-cidadania que a do estado central (pelo menos este é mais “visível”).

O cidadão português é um cidadão esmagado. Como o filósofo José Gil diz o português “tem medo de existir” (só não acredito, é que a culpa seja toda de Salazar!).


Ligação às Instituições Civis

A – Ligação à Igreja

Há um conceito, dito republicano, que localiza algum tipo de intelectualidade (pretensamente mais séria e “objectiva) no “pensamento e numa praxis” laica ou mesmo anti-religiosa.

Parece-me que, desde a Revolução Francesa, esta questão continua por resolver nos países não protestantes, pois é nos países católicos que a laicidade assume uma marcada (diria até, exacerbada) importância política, como é o caso de Portugal.

Os países do norte da Europa, inclusive a Alemanha, e os anglo-saxónicos possuem uma “religiosidade” socialmente muitíssimo activa e “visível”. A participação social das instituições religiosas estende-se por vários domínios, é ampla e pública, embora suportada, directa e essencialmente, pelos cidadãos e não pelo estado.

Mas, o que pretendo chamar a atenção é que, apesar da existência desse pensamento e de uma praxis social consentânea (que sem dúvida terá alguma fundamentação histórica), não nos podemos esquecer que as sociedades humanas, todas elas impreterivelmente, são Identificadas e Identificam-se a si, mesmas, pelos seus valores éticos, pela sua Cultura e por praxis sociais objectivas, cuja representação e simbolismo estão maioritariamente contidos e são preservados (eternizados) como reportório da Religião (ou Religiões) praticadas por essas respectivas sociedades.

Ou seja, a Religião constitui, em cada sociedade, uma fonte essencial de identificação e de coesão social, de “orientação” do dia a dia das pessoas e das comunidades humanas e, em geral, sempre esteve mais perto e “a favor” das pessoas e das respectivas comunidades do que os respectivos estados. A Religião acaba por constituir uma “emanação” e uma manifestação da própria vida em comunidade e, frequentemente, representa a própria comunidade, em si – representa a comunidade naquilo que nela se eterniza.

Evidentemente, só estou aqui a salientar o que da Religião é a relação “terrena” com o indivíduo e a comunidade e não a relação com Deus, embora ambas se correspondam.

Historicamente, as Religiões sempre desenvolveram uma intensa relação e diálogo com o Indivíduo e o seu papel na sociedade e assumiram uma particular intervenção na promoção da solidariedade no seio da comunidade (muitíssimo antes de algum estado o ter feito). A própria intermediação Divina, simbolizada pelas Religiões, traduz-se (não exclusivamente, evidentemente) numa praxis social norteada por valores essenciais à existência de vida em comunidade e à sua coesão, e essa responsabilidade assume-se no plano da responsabilidade individual (do indivíduo perante Deus).

Nesse sentido, a Igreja (e, em geral, as Religiões) têm uma postura liberal porque se trata de uma responsabilização de tipo liberal (do indivíduo), embora seja uma responsabilidade com vista à coesão e desenvolvimento da comunidade. Trata-se de uma responsabilização que visa a auto-responsabilidade.

O diálogo entre a Direita Conservadora Liberal e a Igreja coloca-se, pois, não só ao nível do conceito que, nas duas, o indivíduo assume perante si e perante a sociedade mas também porque a própria coesão social (a vida em comunidade) se deve sustentar em Valores Éticos e Espirituais que a Religião preserva e “faz cumprir” e que a Direita Conservadora Liberal também defende. Ou seja, a Direita Conservadora Liberal e a Religião possuem um entendimento muito próximo (ou mesmo coincidente) sobre o papel do Indivíduo na sociedade e de como esta deve servir a nossa Humanidade.

O humanismo liberal é um humanismo intrinsecamente religioso, enquanto que o “melhor” humanismo do estado é um humanismo laico e, frequentemente, até é um humanismo anti-religioso.
Note-se que, pela sua própria natureza, estado e Religião, representam “coisas” diferentes, embora com frequência o estado procure instrumentalizar a Religião em seu benefício. Porque têm fins e interesses diferentes, segundo a minha opinião, o humanismo laico não tem, até agora, conseguido “servir” a comunidade humana, pois rapidamente se tem desvirtuado numa relação administrativa e coerciva, externa ao indivíduo e à própria comunidade de indivíduos, e é sentida frequentemente como algo imposto de “fora” (e, até, como impostora). O humanismo laico não é auto-responsabilizante, como é o humanismo religioso.

Aliás, a “crise” de valores do ocidente, muitíssimo mais marcada na Europa continental que no resto do mundo dito ocidental, é segundo vários investigadores essencialmente derivada de um humanismo laico, que respeita muito pouco a Memória dos povos, os “seus” valores éticos e a “sua” praxis social – realmente, acaba por ser um humanismo “modista” (porque sujeito à moda) e homogeneizante, ao sabor dos votos. Como se trata de um humanismo do estado, ele “vinga” pela força coerciva do estado e porque sobre uma Religião por si amordaçada. Claramente esta situação é muito mais marcada no sul que no norte da Europa, pois as religiões protestantes não se deixaram amordaçar tanto como a religião católica; aliás, as religiões protestantes preservam uma intervenção social activíssima (associada a uma cidadania muito activa), que se estende por vários domínios como a saúde (centros de saúde, hospitais), à educação (desde creches a universidades e centros de estudos avançados), solidariedade social, combate à pobreza e apoio ao desenvolvimento, promoção de associações cívicas, etc. As Religiões protestantes são uma fonte de cidadania e de promoção à cidadania.

Parece-me que, em geral, o estado europeu não entendeu o significado da “separação” entre a Igreja e o estado, quando afinal acaba por se pretender substituir à própria Religião e impor uma laicização a comunidades humanas que, não só, não são laicas como não querem ser laicas (e, de facto, não o podem ser). O debate que teve lugar relativamente à inclusão ou não de uma referência à Religião Cristã na introdução da Constituição Europeia é disso exemplo.

Aliás, a forma como o estado europeu está a tratar a laicidade, parece-me estar a descaracterizar a própria Civilização europeia e a sua coesão interna, enquanto comunidade; por um lado, “laicidade” não deve significar “contra a religião” e “liberdade de religião” também não significa “sem religião”. O estado é laico, mas as pessoas, que dele fazem parte e representa, não são laicas.

É lamentável, e grave, que este tipo de laicidade como anti-religião, se assuma muitas vezes como pretensamente derivada do pensamento científico; a ignorância do que é Religião e Ciência é devastadora e aterradora.

É nesse sentido (embora, não o seja exclusivamente) que eu afirmo que a Direita Conservadora Liberal deve preservar e desenvolver um diálogo amplo e aberto com a Igreja Católica. A Igreja Católica é a Instituição que melhor representa os portugueses, a sua cultura e os seus valores e aspirações éticas (tenha a Igreja disso ou não consciência, esteja ela mais ou menos “amordaçada” para o fazer). Por outro lado, a Direita Conservadora Liberal quer-se constituir, no plano político, como representante esclarecido, sério e honesto, das aspirações, dos direitos, dos valores desses mesmos portugueses.

Parece-me que a própria Igreja tem necessidade de uma afirmação social mais consentânea, não só, com a representatividade que possui em Portugal (e que tem vindo sucessivamente a ser esmagada e amordaçada) mas também com a responsabilidade social que ela possui efectivamente para com os cidadãos portugueses.

O diálogo com a Igreja não se deve pois realizar porque esta, com o seu “poder”, possa ajudar à conquista de votos. Isso seria tentar persistir na instrumentalização da Igreja (o que tem ocorrido ao longo de séculos), mas nunca seria um bom caminho a seguir para a Direita Conservadora Liberal, uma vez que negaria a sua própria essência (os fins não podem nunca justificar os meios). Esse diálogo deveria existir porque, sob o ponto de vista conceptual e ideológico, a Igreja é a Instituição civil portuguesa que com maior facilidade e sentido de responsabilidade pode interagir com a Direita Conservadora Liberal.

Evidentemente, um tal diálogo não significa que ele não deva ser estendido às restantes Religiões existentes em Portugal, em especial às Cristãs.

A divergência possível entre a Direita Conservadora Liberal e a Igreja Católica estará eventualmente na forma centralizada com que a Igreja Católica vê a sua actuação na sociedade – hoje, bastante menor que ontem mas, mesmo assim, muito mais que as Igrejas Protestantes.

De facto, há uma grande desconfiança de como algo se pode “dirigir-se” numa dada direcção sem ser sob a ordem de um “comandante”. Tal desconfiança tem razão de ser; contudo, isso não ocorre deste modo em sistemas complexos adaptativos como o são as sociedades humanas. Apesar de todas as desconfianças, a realidade social dos países liberais mostra bem que não é preciso um “comandante” plenipotenciário e omnipresente para que “todos” caminhem e caminhem de forma ordeira, eficaz, criativa e responsável.

Não sei quais os contactos existentes entre a Igreja Católica portuguesa e a Igreja Católica dos EUA, do Canadá ou da Austrália, mas seria interessante e muitíssimo frutuoso, mesmo para a Direita Conservadora Liberal, desenvolver um diálogo tripartido entre estas instituições – acho inclusive que seria interessante a Direita Conservadora Liberal pedir esta ajuda à Igreja Católica portuguesa e dos EUA para uma reflexão conjunta, de âmbito teológico, sobre o “liberalismo como pressuposto de realização do Homem” e sobre “humanismo religioso versus humanismo laico”.


B – Ligações às Universidades e Instituições de investigação social

Uma parte do debate que a Direita Conservadora Liberal terá de desenvolver, é a nível conceptual.

Todos temos consciência que quando se fala em Direita Conservadora Liberal ou em qualquer outro tipo de direita, o que se vê é “medo”; “medo” de um passado que parece não ter sido bem entendido e caracterizado. A Direita tem esse pecado original, mas a Direita Liberal está-lhe associado, apesar de nada ou pouco ter a haver com ele.

Por outro lado, a Direita Conservadora Liberal defende valores e conceitos que, frequentemente, me parece que não são bem entendidos pelos portugueses, mesmo a nível de alguns especialistas. Os conceitos de liberdade, de cidadania, da separação objectiva dos poderes do estado (sistemas de poder e contra poder, de equilíbrio de poder, etc.), o papel social do mercado e a da moeda, o corporativismo e o cooperativismo, etc. – todos eles, conceitos “importados” – parecem-me, frequentemente, conceitos pouco entendidos. Os portugueses possuem, interiorizada, uma cultura anti-liberal, anti-cidadania, e frequentemente não têm disso consciência, nem sabem e admitem que é possível “pensar e fazer de forma diferente”; muitos dos conceitos “importados” (porque não “produzidos” pela nossa realidade social) são ajustados à realidade interna (forma de pensar e agir) e muitas vezes acabam por ser pálidas imagens do que representam esses mesmos conceitos aí aonde foram “descobertos”.

Por isso me parece que é essencial iniciar o debate aí aonde as pessoas possuem intensas preocupações científicas, intelectuais e sociais e estão disponíveis para “ouvir, pensar e contestar”.


Iniciativas Pró Cidadania

O índice de livre associativismo em Portugal é baixíssimo. Muitas das associações que se criam, acabam por ser desconhecidas do público e, de facto, nada fazem – a não ser, ir buscar subsídios ao estado (do qual realmente acabam por depender e “servir”).

É evidente que Impostos tão elevados transformaram os portugueses em cidadãos cada vez mais pobres e com cada vez menos possibilidades de assumir iniciativas autónomas e independentes do estado.

Sem dinheiro, não se pode ter iniciativa para nada; as energias de cada um, restauradas, dia após dia, são para continuar a persistir numa sobrevivência precária e para continuar a pagar impostos a alguém, que diz que “toma conta” de nós e dos nossos filhos, e que diz que isso é para o “nosso” bem.

Quando Jorge Sampaio ou Cavaco e Silva fazem apelo à iniciativa civil, só podem estar a brincar!

Mas, infelizmente, não estão a brincar. Não estão a brincar, porque não têm uma clara consciência que pessoas pobres não podem ter iniciativa e ainda menos têm consciência que é o próprio estado que as empobrece. Pessoas pobres, numa sociedade profundamente burocratizada e “inibidora” de toda a iniciativa (a não ser das elites “protegidas”), nada podem fazer, a não ser tentar continuar a sobreviver e a continuar pagar impostos ou, então, têm de “fugir” (imigrar).

Os “ferraris” e os “patrol” não serão nunca substituídos por um empreendorismo diferente, porque não só continuará a vir o dinheiro de aonde ele veio para os pagar como continuará a vir a respectiva “protecção”.

A questão da cidadania e da sua participação coloca-se com premência, ao nível do nosso sistema societário.

É evidente que Jorge Sampaio e Cavaco e Silva têm razão, é evidente que a sua preocupação com a cidadania constitui o cerne de um grave problema estrutural da nossa sociedade, mas se não se olhar para as suas causas profundas ficaremos pelo “conversa e pelas boas intenções”. Para tal, é preciso deixar de ter medo que milhões de portugueses pensem e ajam, é preciso acreditar na cidadania e que daí virá bem para todos.

Em Portugal, só o Estado ou as entidades a quem ele entrega o dinheiro dos impostos, podem tomar iniciativas socialmente significativas. Para além dos estrangeiros, são muitíssimo poucos os portugueses que o podem fazer de forma autónoma e independente do estado.

Apesar de tudo, penso que é possível à Direita Conservadora Liberal ajudar na promoção de associações de cidadãos com vista à sua participação em vários domínios, inclusive de carácter económico.

A extrema pobreza da classe média portuguesa aconselha a que se olhe o cooperativismo, tipo nórdico, como uma hipótese interessante de modelo associativo. O recurso à Internet e o cooperativismo criam um novo espaço de cidadania a explorar.

Quelhas Mota

A Direita É Natural Ao Homem

…Em Portugal a Direita tem necessariamente de vestir um fato de macaco e ter consciência que tem uma missão a cumprir…

A DIREITA conservadora tem como base uma corrente político-filosófica que muitos chamam de conservadorismo. É assente no pessimismo antropológico, isto é, o homem é essencialmente egoísta e vai evoluindo ao longo dos séculos, com as várias heranças recebidas dos antepassados, não só no aspecto cultural mas também no material. Como diz Louis de Bonald "não são os indivíduos que formam a sociedade, mas a sociedade que forma os indivíduos".

As instituições criadas na sociedade têm como função a preservação de valores que o Homem foi recebendo durante vários séculos.

A filosofia da esquerda, dos chamados progressistas, sofre de um divórcio radical entra a verdade e o real. Promete aos homens o paraíso na terra com um bilhete de ida e volta em primeira classe. Para eles o homem é essencialmente bom e a sociedade é que o faz mau e perverso.

Vem tudo isto a propósito da distorção política que a sociedade portuguesa sofreu, após o 25 de Abril de 1974. Com efeito, quem não era de esquerda era "fascista". Todo e qualquer debate ideológico sobre teorias políticas foram abafados. A política tinha sentido único: esquerda e só esquerda.

Trinta e dois anos passados, o debate das teorias políticas vai aparecendo, ainda que timidamente.
Mas fará hoje sentido discutir-se o que é ser de esquerda e de direita?

Penso que sim apesar do poder económico dominar todas as sociedades e inversamente não ser o poder político a sobrepor-se ao económico, o debate deve ser feito.

Em boa verdade o que a esquerda introduziu foi uma forma monótona de viver que a curto prazo iria comprometer o planeta. A defesa da condição humana através da igualdade dos indivíduos, das rotinas, dos hábitos, das expectativas, procura qual teoria de gestão à "standarização" e à manipulação fácil do Homem, já uniformizado.

Na sociedade esquerdista e financeira todas as pessoas têm créditos, conta-ordenado, carro, casa e vão ao shopping.

Portugal não está salvo deste perigo e ainda é um exemplo vivo do niilismo da esquerda.

Em nome da "mudança" e da "liberdade", criou-se um País sem história nem passado. Em nome da melhoria das condições de vida criaram um bando de endividados. Em nome da rapidez das comunicações um feixe de auto-estradas e scuts que se enchem e esvaziam consoante o dia de recebimento dos salários e uma rede ferroviária destruída pelo abandono.

Todo este estado de coisas se vê à Direita.

A verdade é que no mundo de hoje mais do que nunca a Direita tem de ser frontal e afirmativa, corajosa e leal. Só desta forma poderá afirmar essas certezas primeiras, claras, irrevogáveis, axiomas da essência humana, cuja consideração é imperativa para a existência da liberdade e para a compreensão de mudança.

O sentido arreigado de comunidade existe em muitos países nossos parceiros e todas as forças trabalham para um objectivo comum deixando de lado a esquerda, essa componente conceptual distanciada da ordem natural das coisas.
Em Portugal a Direita tem necessariamente de vestir um fato de macaco e ter consciência que tem uma missão a cumprir.

Não fomos para a rua gritar Portugal, com gardénias!

Os palhaços fazem rir mas pedem pão!

Quem quer circo tem de gostar de feras!

Raul Lopes

O Conservadorismo Liberal

… O Conservadorismo Liberal, por seu lado, está ausente da realidade institucional europeia e o mercado, um dos seus pilares fundamentais, foi transformado num instrumento ao serviço de uma utopia centralizadora do poder…

A UE é, cada vez mais, um projecto de influência socialista que assenta maioritariamente em práticas da mesma natureza. O Conservadorismo Liberal, por seu lado, está ausente da realidade institucional europeia e o mercado, um dos seus pilares fundamentais, foi transformado num instrumento ao serviço de uma utopia centralizadora do poder.

O Conservadorismo Liberal define-se pela conjugação de ideias conservadoras e liberais. Existe um conjunto de ideias chave que são comuns às duas ideologias e que se verificam exclusivamente a nível nacional:

1 - A lei democraticamente aprovada como elemento definidor da actuação dos diversos agentes em cada país ou na respectiva jurisdição (a “rule of law” anglo-saxónica).
2 - A independência do poder judiciário.
3 - O Estado com limites ao seu crescimento e à sua dimensão.
4 - A distinção clara entre sociedade e indivíduos e o Estado.
5 - A limitação do poder político pela garantia constitucional da existência de uma oposição, seja qual for a forma que ela tomar.

Mas existem também ideias divergentes entre as duas ideologias. Uma dessas ideias reflecte-se na forma como os cinco valores acima apresentados são encarados. Para os conservadores, o Homem é considerado de uma forma realista, daqui resultando que deve ser respeitada a especificidade de cada ser humano e de cada povo, as suas práticas culturais e as suas tradições. O Homem é um ser com virtudes e defeitos que se encontra permanentemente face a dilemas tão díspares como entre espírito e matéria, individuo e sociedade, governantes e governados, o próprio Homem e a natureza ou a liberdade de empreender e a actividade reguladora do Estado. Desta tensão resultam limites às capacidades de actuação do Homem e é por isso que é muito importante que a actuação do Estado esteja também explicitamente limitada de forma a prevenir potenciais abusos cometidos por aqueles que o dirigem. È dentro desta lógica que os conservadores moderados entendem a necessidade de uma ordem estabelecida. Uma ordem que reconheça os limites do Homem e que, dessa forma, limite também as possibilidades deste abusar de uma eventual posição dominante que o sistema político, ou outro, lhe possa conceder. Esta limitação assenta na lei mas esta nunca poderá ser usada para limitar os poderes de uns em favor de outros. Esta forma de encarar o Homem é, portanto, um sexto valor, essencialmente conservador.

Os liberais, no entanto, partilham com os socialistas/social democratas a ideia utópica e irrealista de que o Homem é um ser intrinsecamente bom e racional e por isso optam por uma concepção universalista da racionalidade em que um determinado conjunto de valores, tal como os Direitos do Homem, são aplicáveis a toda a humanidade. Este ultra-racionalismo de base utópica serve de suporte às constantes referências internacionalistas utilizadas por liberais e socialistas, sendo um exemplo concreto a defesa de um papel mais activo das Nações Unidas e a evolução para um Governo mundial. A esta utopia está intimamente associada uma tentativa evidente de imposição de valores, o que, no caso dos liberais, é uma clara contradição com a sua posição de defesa da vontade individual e de recusa do poder centralizado.

O perigo de se começarem a impor valores em nome de uma utopia representada por uma qualquer forma de organização administrativa, como é, mais uma vez, o exemplo das Nações Unidas, é que esta imposição se transforma rapidamente na tentativa de obrigar a determinadas acções e comportamentos. Daqui até à negação da vontade individual e da liberdade de actuação em qualquer sociedade de um legítimo Estado soberano vai um passo muito pequeno. È esta a experiência de todos países que apostaram numa utopia, como foram os casos dos regimes socialista, nazi e fascista. No primeiro caso foi a igualdade despótica que se impôs à liberdade. No segundo, foi uma espécie de “messianismo” despótico. Em ambos os casos, foi uma concepção centralizadora do Estado em que a definição dos valores prevalecentes era imposta de cima para baixo e a outros povos e nações. Os regimes liderados por utopias são os que, ao longo do século XX, demonstraram serem contrários à liberdade individual e à responsabilização do ser humano.

A UE à luz do Conservadorismo Liberal

Do exposto resulta uma base de análise da organização e do funcionamento da União Europeia (UE). Os seus objectivos formais, a liberdade, a democracia, a paz e o desenvolvimento económico e social são consensuais e promovidos pelas três ideologias aqui consideradas: Conservadores, liberais e socialistas. No entanto, o mesmo já não se pode dizer da prática política nas instituições da UE nem dos objectivos implícitos e do espírito que desde há alguns anos passou a imperar nas elites europeias.

Em primeiro lugar, a lei democraticamente aprovada deixou de ser um elemento central na legislação europeia. As leis são definidas e aprovadas por uma burocracia sem legitimidade democrática, no caso das políticas comuns em que os poderes foram já transferidos para o centralismo de “Bruxelas”. Ou, quando não aprovadas, são definidas pela mesma burocracia, que assim influencia decisivamente o seu conteúdo. Ao contrário do que se passa nos Estados, onde as burocracias são geridas por governantes eleitos, o funcionamento da Comissão Europeia assenta numa completa ausência de legitimidade. O Parlamento Europeu, com alguma legitimidade democrática, tem uma capacidade de intervenção muito limitada.

Em segundo, e não estando em causa, formalmente, a independência do poder judiciário face ao poder político, tem-se assistido a uma constante tomada de posições pelo Tribunal de Justiça da UE contrárias à autonomia dos povos e países, e que vão no sentido da tendência centralizadora exibida pelas restantes instâncias europeias. Ou seja, a jurisprudência europeia decide sistematicamente, e quase exclusivamente com base no argumento da construção do mercado único, na direcção de uma maior concentração de poderes em “Bruxelas” sem que esteja explicitamente estabelecida, em qualquer dos tratados constitutivos da UE, uma vontade comum de se caminhar para um Estado europeu ou qualquer forma equivalente de organização centralizada. Em suma, o predomínio da burocracia, administrativa e judicial, em prejuízo da legitimidade democrática e conducente à centralização e acumulação do poder é claramente uma característica dos regimes e da ideologia socialista, e contrários ao conservadorismo moderado e ao liberalismo.

Em terceiro lugar, a ideia de um Estado limitado também não vingou no caso da UE. A transferência de responsabilidades para as instâncias europeias nunca teve correspondência na diminuição da estrutura pública nos países membros. Pelo contrário, continua a assistir-se a um aumento da presença do Estado a todos os níveis da sociedade. Esta presença, em vez de essencialmente limitada a dois níveis (ou a três, no caso dos países com entidades intermédias democraticamente eleitas), nacional e local, foi aumentada com um nível supra-nacional. Para além disso, não é evidente o funcionamento de mecanismos limitadores do crescimento do Estado, como as ideologias conservadora e liberal defendem. O mercado, instituição que por natureza tem esta função, é usado como justificação para a propagação de leis e como instrumento ao serviço da centralização de poderes. Os mecanismos formais que existem, como o princípio da subsidiariedade, não funcionam na prática e apenas servem para serem relembrados, numa hipócrita demonstração de que “existem”, por parte dos que apoiam o centralismo europeu e ignoram a sua aplicação. Senão como explicar que a lei europeia abranja assuntos tão pormenorizados como a proibição de levar comida para quartos de hotel?

Do mesmo modo, e em quarto lugar, a distinção clara entre sociedade e Estado é desfeita quando as instâncias da UE, especialmente a Comissão Europeia, utilizam fundos públicos para promover organizações da sociedade civil criadas propositadamente para defender as utopias dos dirigentes europeus. Ou quando promovem supostos debates de ideias em que não é permitida a participação de qualquer oposição a uma UE centralizada. Ou quando patrocinam publicações, supostamente livres e independentes, para defender uma “Europa cada vez mais unida”. Ou ainda quando pagam programas de televisão e de rádio, como os que actualmente são transmitidos por toda a Europa, para promover a ideia europeia. Todos estes procedimentos, assim como o contínuo crescimento das estruturas do Estado, são característicos de uma visão socialista do Estado: Crescentemente dominador e manipulador dos órgãos de comunicação social.

Em quinto lugar, as instâncias comunitárias funcionam no âmbito de um consenso artificial e centralizado, em que dois grupos, socialista e popular, ocupam todos os cargos relevantes e distribuem entre si o grosso dos dinheiros públicos que têm à sua disposição e que provêm das leis por eles próprios aprovadas. No Parlamento Europeu respira-se uma atmosfera opressora em que os que não alinham no “consenso” são positivamente marginalizados nas comissões de especialidade e em outros fóruns. Na Comissão Europeia sobrepõe-se a voz da propaganda à livre argumentação, como o demonstra a campanha organizada pela Comissária Wallstrom e pelo Presidente Durão Barroso. Apenas no Conselho, onde os países estão representados, existe verdadeiramente discussão. Este duopolio podre encena constantemente a existência de uma oposição ao centralismo europeu, em que socialistas e democratas-cristãos vão alternando de função. Mas a real oposição, pressuposto base de qualquer regime democrático, tem uma capacidade de actuação muito limitada dentro da UE.

Em conclusão, os valores essenciais do Conservadorismo Liberal foram completamente menosprezados e estão ausentes do funcionamento das instituições da UE. Mas mais grave ainda, todo o projecto de integração europeia se está a transformar num ideal socialista. Os objectivos formais da UE, já parcialmente alcançados, deram lugar a uma utopia ultra-racionalista em que a “Europa” visa adoptar, com uma voz única onde as dissonâncias são afastadas, uma postura internacionalista e se pretende afirmar como a superior “razão do Universo”. Neste âmbito, o mercado, por via da “construção” do Mercado Único, foi dogmatizado e transformado numa ferramenta desta utopia. Esta nova forma de império assenta na necessidade de um governo “europeu”, desrespeitando a legítima soberania nacional, e nos seus objectivos implícitos, definidos centralizadamente e pouco precisos, e por isso impossíveis de controlar por povos e cidadãos. O que passa para o público é um conjunto de clichés, onde palavras como solidariedade, direitos, humanismo e união são constantemente usadas e abusadas.

Esta UE representa a recusa completa dos valores conservadores. O conservadorismo não é a luta contra a mudança, como alguma propaganda mal intencionada divulga, mas sim uma mudança limitada pela necessidade e pela vantagem em ser concretizada. Neste sentido, o conservadorismo é contra a mudança pela mudança, a mudança não fundamentada, defendida pelos chamados “progressistas”. O conservadorismo é sim, uma espécie de “princípio da subsidiariedade” em que a mudança tem de ser justificada. As elites que actualmente conduzem a Europa para um Estado único tentam evitar qualquer tipo de justificação. Os referendos em França e Holanda foram um acidente de percurso que aconteceu de uma forma imprevista para estas elites. Por tudo isto, ser conservador, e ser liberal, tornou-se incompatível com ser “europeu”.
Ricardo Pinheiro Alves

Uma Nova Direita

… Empresas sem lucro estão condenadas ao desaparecimento e por cada empresa que fecha a sociedade como um todo torna-se mais pobre …

Apesar de jovem vivi 7 anos fora de Portugal e tive a oportunidade de trabalhar e estudar em diversos países e conviver com diferentes culturas. Deste modo é inevitável que muitas vezes dê por mim a fazer comparações e tentar perceber o porquê de muito do que se passa no melhor país do mundo, o nosso Portugal. Acreditem que apesar dos seus problemas e defeitos é realmente um grande país e somos uns sortudos por ter tido o privilégio de ter nascido portugueses. É assim que eu me sinto, um privilegiado. Sinto também que tenho a obrigação e o dever de criticar o que acho que está mal e indicar sugestões. È o que fazemos em família, criticamos para dentro e defendemos para fora.

Um dia quando vivia em Denver fui assistir a um jogo de futebol americano da equipa local, á porta do estádio estava estacionado um Ferrari F40 (um carro que desperta as atenções mesmo dos que não são apreciadores) e quando seu dono chegou para leva-lo começou a receber os parabéns de pessoas que estavam a sair do estádio ao mesmo tempo do que eu, que tal como eu não o conheciam de lado nenhum. Fiquei espantado, todos admiravam o carro e mostravam essa admiração ao seu dono, pelo simples facto de este poder possuí-lo. Comentei com um amigo americano que estava comigo que aquela situação seria pouco provável em Portugal. Possivelmente alguém que deixasse um carro daqueles estacionado na rua encontraria o mesmo com a pintura riscada e de certeza ninguém lhe daria parabéns por ter podido adquiri-lo.

Reside aqui uma das diferenças culturais fundamentais entre os norte-americanos e os portugueses, ou sendo optimista, alguns portugueses. Os bem sucedidos lá são respeitados e servem de modelo para os outros. Pressupõe-se que, se são ricos e têm sucesso porque têm mérito. Com excepção dos mafiosos e outros bandidos, ninguém enriquece se não tiver trabalhado muito ou não possuir qualidades que os distingam dos demais. O sucesso não desperta inveja mas sim admiração. Por que é que em Portugal ás vezes é diferente? Porque é que temos vergonha do sucesso e do lucro? O lucro, entre nós, não é visto como uma recompensa pelo mérito, mas sim como um privilégio imerecido, algo que foi obtido, provavelmente, por meios obscuros, predatórios e sem escrúpulos. Os empresários, com razão, muitas vezes têm relutância em comentar a rentabilidade de suas empresas e muitas vezes ouvimos a expressão "lucros exorbitantes", como se por si só tal seja uma coisa má.

O lucro, é a justa contrapartida pela eficiência, pela excelência administrativa e pelo empreendedorismo. Mais do que isso, é a razão de existir das empresas. O lucro é o motor do sistema capitalista. Somente com ele há geração de riqueza, crescimento económico e prosperidade geral para a sociedade. O lucro cria empregos, investimentos e novas oportunidades. Empresas sem lucro, por outro lado, estão condenadas ao desaparecimento e por cada empresa que fecha a sociedade como um todo torna-se mais pobre. Alguns portugueses não entendem muito bem isto. Muitas vezes quando se questionam pessoas sobre a missão que uma empresa deve ter, a geração de lucros aparece em último lugar e muitos apontam que a função prioritária das empresas é gerar empregos, ajudar a desenvolver o país e desenvolver trabalhos comunitários. Penso que existe uma evidente contradição de conceitos. Como pode uma empresa gerar empregos, ajudar no desenvolvimento e realizar trabalhos comunitários, se não gerar recursos, ou seja, lucros? Não há efeito sem causa.

É verdade que existem razões culturais e históricas para esse desconforto dos portugueses em relação ao sucesso e ao lucro. Por um lado, a religião católica associou durante muito tempo a riqueza à luxúria, ao materialismo desenfreado e ao relaxamento moral (para os protestantes, ao contrário, a abundância é uma bênção de Deus). Por outro lado, em Portugal, pesa contra os ricos o facto de que muitas fortunas não foram adquiridas por mérito pessoal, mas sim por meio de benesses e privilégios concedidos pelo Estado. Os lucros conseguidos assim não resultam como recompensa do mérito, mas de relações sem ética e sem escrúpulos com o poder politico, são portanto ilegítimos e aos seus detentores e não se atribui reconhecimento social. Adicionalmente, os lucros muitas vezes na opinião pública são os grandes responsáveis pela desigualdade económica e pela injustiça social. Esta visão negativa e distorcida, em minha opinião, pode ter feito sentido no passado, quando o estado controlava totalmente a economia e os empresários, e alguns, eram favorecidos com reservas de mercado (monopólios), subsídios e outras facilidades. Actualmente, apesar de ainda subsistirem situações de irregularidade arrepiante, contra as quais temos de lutar com todas as nossas forças, essas não são a regra geral e com a gradual retirada do Estado do campo económico e a implementação da livre concorrência, a má reputação do lucro tem de ser revista. No mercado livre só vencem os mais capazes, os mais eficientes, os melhores empreendedores. São eles os responsáveis pelo fornecimento de produtos cada vez melhores a preços cada vez menores, e a sociedade inteira ganha com isso.

Eu sou um conservador-liberal convicto, sou de uma nova geração do pós 25 de Abril e por isso um férreo defensor do mercado aberto, da concorrência pura e da livre iniciativa. Cabe ao Estado criar instituições isentas e mecanismos de regulação imparciais para promover estes três factores. Quando o estado o faz está a garantir a igualdade de oportunidades para todos, pois desde que todos partam de condições idênticas o jogo livre das forças económicas encarregar-se-á de premiar os melhores, os mais empenhados e os mais capazes.

O lucro não é pecado! Pelo contrário, é com ele que a sociedade, como um todo, prospera. A grande missão das empresas é a de dar lucro. Se elas o conseguirem, respeitando os parâmetros legais e éticos, estarão assim a criar valor, a pagar impostos, a gerar empregos, a enriquecer o país e a cumprir a sua função social.

Em nome de uma nova direita peço aos socialistas que me perdoem, mas o lucro é essencial. O resto vem por consequência. Não queiramos mal aos que têm sucesso, vamos sim lutar para que todos um dia, possamos também alcança-lo!
João Montes

A Direita Do Povo

… esta alternância (do exercício do poder do estado) quando sistemática, deixa de ser compreensível, na medida em que voltar a uma ilusão anterior como se ela não tivesse sido razão de desilusão, não faz sentido …

Tem-se verificado em Portugal nos últimos 30 anos, um fenómeno que é simultaneamente curioso e estranho, e que reside no facto do poder executivo ser alternadamente exercido pelos mesmos dois partidos políticos (PS/PSD), ainda que com uma ou outra variante de ocasião, como se de facto não existissem, como existem, outras opções. O eleitorado vai variando então a sua escolha, optando por votar num ou noutro, sendo que essa alternância entre estes dois partidos mais não será do que uma reacção emotiva e natural de descontentamento com um dos partidos favorecendo quase sempre o outro. No entanto, esta alternância quando sistemática, deixa de ser compreensível, na medida em que voltar a uma ilusão anterior como se ela não tivesse sido razão de desilusão, não faz sentido.

O que nos leva a questionar: qual a razão de ser desta atitude, considerando que o eleitorado é ele próprio o principal visado das (más) opções que toma? Ora a resposta afigura-se deveras complexa, e quanto mais vamos percebendo o sistema, mais nos apercebemos da sua complexidade. Muito resumidamente, desde logo, o eleitorado é um “mercado” que é condicionado pelas técnicas de marketing, ainda que político, que tem como objectivo vender um determinado produto/partido. Nesse sentido, os diferentes governos, vão exercendo essa “propaganda”, utilizando os meios colocados ao seu dispor (TV, rádios, jornais), exercendo nestes a sua influência, influenciando. Para tal, vão distribuindo estrategicamente os seus homens de confiança, fazendo-o neste pressuposto e não necessariamente pela sua eventual competência para desempenhar o cargo, em lugares chave desses mesmos meios.

A primeira consequência, é então o domínio pelo partido que exerce o poder desses meios de comunicação/empresas públicas, condicionando-os, sendo as más gestões praticadas uma mera consequência da falta de competência que, maioritariamente, estes “nomeados” têm para o desempenho efectivo do cargo. Ora, é aqui que reside um dos principais problemas da democracia em Portugal, tendo estes partidos estado tanto tempo a repartir o poder entre si, eles próprios criaram defesas/obstáculos ao desenvolvimento de novos partidos, por um lado, assim como provocam o estrangulamento dos partidos já existentes.

Por outro lado, tal exercício do poder vai criando no eleitorado um sentimento de frustração e de resigno, levando a um conveniente desinteresse. Durante algum tempo, achei que a culpa da elevada taxa de abstenção em Portugal era francamente imputável ao eleitorado. Progressivamente fui percebendo, que esta favorece antes de mais os partidos do centralão (PS e PSD), e que são uma consequência intencional das suas políticas.

Vejamos, o PS nas últimas eleições legislativas conseguiu a maioria absoluta com 45,05% dos votos, ficando-se o PSD pelos 28,70%, num universo de 5712427 eleitores. A verdade é que o PS governa o país com 2573406 votos a que corresponde 29,29% dos votos disponíveis, considerando a existência de uma taxa de 34,98% de abstenção, 3072800 eleitores não votaram num universo de 8785227. Por outro lado, constata-se que é esta mesma abstenção, a sua oscilação, que acaba por ter um papel preponderante no sistema político português actual, na medida em que é ela que decide se é o PS ou o PSD a governar o país. Ou seja, os destinos do país, a sua governação, é decidido por aqueles que decidiram nada decidir, influenciando com isso o próprio sistema democrático.

O que me leva a concluir o seguinte: o facto de que quem tem poder de decisão, opta por não decidir, decidindo pode provocar decisões adversas aos referidos partidos, revelando-se bem mais favorável que assim permaneçam. A tudo isto acresce o facto de PS e PSD terem políticas que cada vez mais se confundem, o que é natural, na medida em que estes partidos, conscientes que o eleitorado maioritariamente votante se situa ao centro, têm desenvolvido as suas políticas nesse sector, somente mantendo os rótulos de esquerda e direita por questões meramente eleitoralistas.

Aliás, decorrente disto mesmo, não fiquei minimamente surpreendido com o pacto para a justiça celebrado entre ambos, assim como com o conveniente afastamento entre ambos na questão da segurança social, como que a dizer, as nossas políticas são diferentes. Certo é, que com a centralização destes dois partidos, a direita tem actualmente uma carência de representatividade junto do eleitorado, tal como acontecia até ao inteligente aparecimento do BE na esquerda. De facto a esquerda em Portugal vinha a ser representada efectivamente, somente pelo PCP, ou seja, com a conexão à ex URSS, e à estagnação política que este partido representa, sendo que à direita, para além da conexão direita/antigo regime, somente encontramos o CDS, que não se conseguindo sequer gerir a si próprio o impede de ser levado a sério quando tenta apresentar medidas para gerir os outros (pelo que não é estranho ter ficado de fora do pacto para a justiça), esperando resolver os problemas do futuro com soluções do passado, apostando para tal no anunciado regresso de Paulo Portas (qual D. Sebastião chegado numa manhã de nevoeiro), como se fosse ele de facto a solução para os problemas da direita em Portugal.
Ou seja, na actual direita portuguesa, tal como acontecia com a esquerda, existe um vazio que pode e deve ser preenchido por um novo partido, que se proponha apresentar um Nova Direita em Portugal, uma direita popular, consciente da evolução social em Portugal, e das novas carências da sociedade.

Uma direita preocupada com os problemas dos trabalhadores, com os reformados, com o flagelo do desemprego, com os sem abrigo, com o futuro dos jovens portugueses, uma direita renovada e alargada assente no Homem, na Nação e no Estado, uma direita do povo e para o povo. O “mercado” está aí, 3072800 eleitores estão ausentes da participação activa na escolha do governo, e a concorrência que existe, ou porque não pode ou porque não quer, não ocupa esse segmento de mercado.

Resta então a esse novo partido saber apresentar-se como tal, e esperar que ao eleitorado lhe seja dada a possibilidade de dele tomar conhecimento.
Franclim Ferreira
In Nova Vaga, nº 6

A Descontaminação

… Daí que uma nova Constituição seja um pressuposto de um novo sistema de governo, verdadeiramente alternativo àquele que PS, PSD e CDS têm gerido sem um lamento durante os últimos anos…

Se há debate político contaminado é o que periodicamente eclode sobre a direita e a esquerda. Contaminado por muitos factores, dos quais o oportunismo eleitoral e as aparências de imagem contraditórias com as acções concretas, não são certamente das menores.

A primeira tentação a evitar para uma discussão séria é a de cairmos no pitoresco. Quando entrei na Universidade Católica em 1978, tempos bem mais agrestes de debate ideológico, tive Ciência Política logo no ano zero, que então era equivalente ao ano propedêutico criado pela esquerda para empatar a afluência ao ensino superior durante um ano.

O meu professor foi Francisco Lucas Pires. E recordo-me de lhe ouvir explicações simples, para perceber as diferenças entre direita e esquerda. Uma das que me ficou no ouvido foi a de que a gravata era de direita e as barbas crescidas eram de esquerda. Ele próprio de barbas, era o desmentido em pessoa da classificação. Eu, que nunca gostei por aí além de andar engravatado, antes pelo contrário, e que me considerava de direita fiquei preocupado. Já quanto às barbas e com a notória excepção do professor, me pareceu na altura adequada a classificação, pois os barbudos pareciam de facto estarem todos acantonados nos partidos da esquerda, coisa que hoje já não sucede.

É certo que os símbolos desempenham um papel fundamental na identificação e na agregação das tribos, mas é certamente superficial reduzir as ideias aos objectos que as pessoas que as professam escolhem como factor de diferenciação.

Outro factor contaminador e este bem mais nocivo é o oportunismo eleitoral. Há quem goste de cultivar uma simbologia de direita sendo na prática mais de esquerda que muitos socialistas assumidos. O exemplo paradigmático é Cavaco Silva. Quando candidato, tem o reconhecimento eleitoral da direita, quando eleito tem uma prática de esquerda. No Governo foi quem aumentou desmesuradamente a despesa pública, a carga fiscal, e a percentagem de rendimento afecto ao funcionamento do tal monstro, que posteriormente veio a criticar com o sucesso que se sabe. Outro exemplo paradigmático em curso é o de José Sócrates, aliás, formado politicamente na JSD, em sentido simétrico. Rodeado de símbolos de esquerda, parece cortar na despesa e parece tomar medidas que mais facilmente veríamos o PSD e o CDS a tomar, mas que, quando Governo, há bem pouco tempo, não tomaram. O que faz parecer Sócrates de direita é o estilo e não os princípios, as ideias ou as políticas. Enquanto o PS da velha esquerda gosta de passar o tempo a discutir a salvação do mundo, Sócrates gosta de criar a sensação de que está a salvá-lo.

O estado do Estado é tão esquerdoso, tão ancestralmente socialista, tão intrinsecamente despesista, que bastam uns cortes simbólicos nas rubricas orçamentais, uns quantos funcionários públicos em luta e uma greve de professores que deixam d éter a garantia legal que um dia serão todos directores-gerais, para o actual líder do PS parecer de direita e pôr CDS e PSD, a direita geométrica, aflitos, parados, sem reacção e sem discurso.

O problema é que, embora com a aparência contrária, a essência do sistema de governo de esquerda está lá e permanece intocado. Por imposição do pacto de estabilidade de Bruxelas que aplica multas aos alunos comunitários mal comportados, o Governo socialista corta na quantidade, mas não mexe na qualidade.

Na educação, na saúde, na segurança social, no modo de distribuição da riqueza, na concepção fundamental dos serviços públicos de justiça, na dimensão da administração pública, nas regras e na filosofia fundamentais do sistema fiscal, o PS não toca. E em rigor, não pode tocar, porque a Constituição não deixa. Daí que uma nova Constituição seja um pressuposto de um novo sistema de governo, verdadeiramente alternativo àquele que PS, PSD e CDS têm gerido sem um lamento durante os últimos anos.

Este é o factor diferenciador da direita conservadora e liberal face aos partidos do sistema. Nós, na NovaDemocracia, não nos queixamos que Sócrates nos tira o discurso, porque nós somos de direita e não pensamos o mesmo que Sócrates. O PSD e o CDS, queixam-se, por que neste momento apenas querem ser uma variante das aparências simbólicas e não uma verdadeira alternativa.
Jorge Ferreira
In Nova Vaga, nº 6

Para Que Serve O Estado

A Nova Democracia lançou, em momento que não podia ser mais oportuno, a questão de saber se o Estado que temos nos serve …

A Nova Democracia lançou, em momento que não podia ser mais oportuno, a questão de saber se o Estado que temos nos serve, ou seja, se cumpre as suas funções e se as funções que assumiu são excessivas ou faz sentido alargá-las, ou diminuindo-as, quais as que devem permanecer sob a competência estadual e quais as que devem ser devolvidas à sociedade.

Convém recordar que na origem está o Homem e não o Estado e que este surgiu apenas para assegurar às comunidades um conjunto mínimo de funções que seriam melhor garantidas se exercidas de modo colectivo.

Com os tempos, as funções do Estado foram aumentando até atingirem as proporções que actualmente lhe conhecemos.

E se é verdade que algumas delas resultam de preocupações colectivas recentes, como seja a protecção do ambiente, o ordenamento do território ou a defesa do consumidor (que integram “adendas” ao contrato social celebrado entre os indivíduos e o Estado), também é verdade que muitas outras já há muito que deviam ter saído do foro de intervenção estatal.

Esta constatação é verdadeira tanto no nível da Administração Pública Central como no nível da Administração Pública Local.

Basta olhar em redor para nos apercebermos que o Estado é hoje bem maior do que há 30 anos e isso é demonstrável qualquer que seja a perspectiva da análise.
À conta de tanto crescer, o Estado descurou a qualidade com que exerce as funções que estiveram na sua origem ou que lhe foram posteriormente atribuídas nas sucessivas “adendas” ao contrato social.

É assim que a Segurança das comunidades está cada vez mais posta em causa, o rastreio do que pode entrar pelas fronteiras dentro deixou de existir, o Ambiente sofre atentados diários, o Território já não tem ordenamento possível e os Consumidores estão à mercê das fusões.

Ao mesmo tempo, caiu-se na tendência para o proibicionismo, face visível de um Estado que teima em ser protector, mesmo que os protegidos queiram dispensar a protecção.

O mais grave é que este espírito persecutório é uma imposição externa, oriunda de Bruxelas, onde muitos passam o seu tempo a imaginar formas de tornar as nossas vidas cada vez mais igualitárias, como se a diferença fosse pecado.

Na área do Ambiente existem também os fundamentalismos inspirados nas teorias proteccionistas, aplicadas indistintamente, sem respeito pelas pessoas que ancestralmente usufruem dos espaços e policiados por técnicos que do ambiente conhecem apenas o que aprenderam nas faculdades urbanas.

Sem esquecer que nesta matéria vigora a regra dos dois pesos e duas medidas: uma que se aplica aos grandes interesses imobiliários e a quem está especialmente bem relacionado e que, muitas das vezes, perante um concreto projecto, abre a porta que a lei fecha e a outra que se aplica ao comum dos mortais e que os impede de qualquer aproveitamento urbanístico das suas propriedades.

A verdade é que existe alternativa ao Estado omnipresente e omnipotente.

Há um conjunto vasto de funções que o Estado actualmente exerce mal, mesmo muito mal e que deveria abandonar para se poder concentrar nas que por natureza lhe cabem, assim as desempenhando com mais qualidade e porventura com menores encargos para os cidadãos.

Devo dizer que mesmo nas chamadas funções soberanas (Justiça, Segurança, por exemplo), o Estado há muito se demitiu de as exercer por inteiro. Na área da Justiça temos os Tribunais Arbitrais e os Solicitadores de Execução que representam, de certo modo, a privatização daquela função. Na área da Segurança temos os serviços de segurança privada, que também são disso exemplo.

Noutras áreas, onde o Estado se propôs intervir, os resultados são calamitosos. Estou a lembrar-me da protecção de menores carenciados ou em risco, de que o processo da Casa Pia e a ineficiência de muitas das chamadas Comissões de Protecção de Menores são exemplos chocantes. Ao invés, onde o Estado deveria recuar é onde o vemos a avançar.

Ao mesmo tempo que deve diminuir o seu peso e a sua presença, o estado deve fomentar a cultura da responsabilidade dos seus agentes, de forma a que se acabe com a impunidade de quem erra, por acção ou omissão, sem que daí lhe advenham quaisquer consequências.

Em suma, só reduzindo e responsabilizando o Estado é que os indivíduos voltam a acreditar no ente a quem confiaram o desempenho das funções inerentes à Nação e à vida em sociedade.
Gonçalo Ribeiro da Costa
In Nova Vaga, nº 6

A Direita E Os Pactos De Regime

... A riqueza da democracia está precisamente na formulação de posições diferentes (…) Só assim, aliás, faz sentido que existam distintos partidos, com soluções efectivamente alternativas, para que os eleitores possam escolher aquelas que mais lhes aprouverem …

Sempre me intrigou o afã com que a generalidade dos políticos e comentadores pugna, ainda que muitos apenas de forma implícita, pela celebração de “Pactos de Regime” - uma espécie de poção mágica para a falta de coragem e excesso de tacticismo de dirigentes partidários.
A principal característica, extremamente salutar, diga-se, de um regime democrático, ao assentar a sua base de sustentação em partidos políticos, é precisamente a diversidade de princípios e de propostas que cada um tem para apresentar ao eleitorado. Nisso reside a sua mais valia e o seu encanto.
A riqueza da democracia está precisamente na formulação de posições diferentes, por vezes diametralmente opostas, sobre os vários problemas que se colocam à governação de um país e de que os partidos são representantes.

Só assim, aliás, faz sentido que existam distintos partidos, com soluções efectivamente alternativas, para que os eleitores possam escolher aquelas que mais lhes aprouverem.
Esta procura do acordo a todo o transe, que parece estar subjacente aos “Pactos de Regime”, é perversa e susceptível de subverter o fundamento da existência de partidos políticos e dos regimes democráticos.

A obsessão pelo consenso nas mais variadas matérias é uma das razões do pântano em que muitas democracias acabam por cair, contribuindo decisivamente para aumentar o fosso entre os políticos e o eleitorado. É este tipo de posturas que leva a que se ouça cada vez mais e com toda a propriedade que ”os políticos são todos iguais”.

Na verdade se defendem a mesmas causas, se inclusivamente sustentam que determinadas matérias, por demasiado dignas, devem estar fora da órbita da disputa entre partidos, como periodicamente se vê defender por tantos dirigentes, sempre em nome do interesse nacional…qual a razão para haver uma pluralidade de formações partidárias? Para advogarem basicamente o mesmo? Apenas para dar a aparência de que existe democracia? Não posso acreditar que o que lhes interessa, muito mais do que a discussão séria das questões e a da apresentação de soluções para os problemas, é meramente o acesso às mordomias, sempre efémeras, do poder!

De facto se não é para representar divergências de pontos de vista, por vezes necessariamente profundos, para que servem afinal os partidos? E para que são necessários vários partidos que na substância, ainda que na forma o dissimulem, sustentam as mesmíssimas coisas? Será normal que dirigentes partidários que nas campanhas eleitorais dramatizam quanto podem os discursos, que radicalizam propostas, que prometem tudo o que lhes vem à cabeça, num exercício de demagogia sem limites, que utilizam métodos nada recomendáveis para denegrirem os adversários, que chegam ao insulto pessoal para tentarem descredibilizar quem se lhes opõe, uma vez terminadas as eleições dêem a aparência de que “aquilo” não passava de uma brincadeira e que uma vez investidos do poder, no governo ou na oposição, venham afinal nas linhas gerais defender a mesma coisa, uns que os outros, desdizendo tudo o que afirmaram de dedo em riste, em gritarias ridículas e muitas vezes de compostura perdida?

Todavia, pode até ser que, os partidos do centro, nele incluindo o que se auto-denomina do arco governativo, quanto mais Pactos celebrarem entre si, mais contribuam para a clarificação da política portuguesa. É que com essa atitude deixam cair definitivamente a máscara. A máscara com que vêm conduzindo a governação vai para 30 anos. E assim abram espaço à afirmação de um partido de direita, popular, conservador e liberal, que se afirme pelo conteúdo das suas posições, naturalmente distintas relativamente ao restante espectro partidário. Havendo 2 partidos que disputam claramente o centro político e outro que o quer também fazer, é indispensável que haja um partido que claramente represente a diferença e corporize um conjunto de princípios e propostas verdadeiramente alternativas. Esse partido, a Nova Democracia, está agora a dar os seus primeiros passos; oxalá seja bem sucedido a bem da sanidade e da transparência da democracia portuguesa.

Os consensos úteis e necessários são os que dão resposta às regras de funcionamento da democracia, aos princípios enformadores da arquitectura do Estado, para que qualquer partido, de esquerda ou de direita, socialista ou conservador e liberal, uma vez chegado ao governo, possa pôr em prática aquilo que prometeu e que o povo em sufrágio sancionou.
É por isso que o único “Pacto de Regime” aceitável é a Constituição.
Miguel Félix António
In Nova Vaga, nº 6

Portugal Essencial

… Debater, hoje, a Direita em Portugal, mais do que explicitar um pensamento político capaz de a distinguir e enfrentar a Esquerda, deve reconduzir-nos à essência da Nação Portuguesa, aos seus valores primeiros e permanentes e a uma visão historicamente fundada do seu papel no mundo contemporâneo …

Em boa hora a NovaDemocracia e o seu Presidente (re) abriram o debate sobre a Direita Portuguesa. Debate praticamente silenciado pelo Estado Novo cuja doutrina oficial, respeitando embora formalmente os valores tradicionais da Direita, exprimia mais instrumentos de uma prática política – o antiparlamentarismo, o condicionamento da opinião – do que uma ideologia.
Debate interdito pelo poder saído da Revolução de Abril com a proibição dos partidos políticos à direita do CDS, como o Partido da Democracia Cristã, o Partido do Progresso e o Partido Liberal.
Debate evitado pela Direita Oficial, representada pelo CDS e por importantes sectores do PSD, que vêem na actual situação totalmente indefinida e confusa, sem debate ideológico, em que são mais as semelhanças do que as diferenças entre partidos políticos ditos de direita e de esquerda, inquestionáveis vantagens de curto prazo: a aposta no Grande Centro, formado pelo CDS, PSD e PS sob a égide e com a caução de Cavaco Silva; e a sobrevivência de um partido ideologicamente assexuado, ou partido guarda-chuva, o PSD, que não resistiria, na sua actual configuração, a uma salutar separação de águas resultante de um debate político sério e profundo.

Debater, hoje, a Direita em Portugal, mais do que explicitar um pensamento político capaz de a distinguir e enfrentar a Esquerda, deve reconduzir-nos à essência da Nação Portuguesa, aos seus valores primeiros e permanentes e a uma visão historicamente fundada do seu papel no mundo contemporâneo.
Em primeiro lugar, à própria existência e subsistência da Nação enquanto tal.

Ao internacionalismo da Esquerda, resultante de uma perspectiva igualitária e determinista, segundo a qual os homens são, na sua esmagadora maioria e por toda a parte, pobres deserdados que nada podem fazer para mudar a sua triste situação, deve a Direita opor um nacionalismo identitário, fundado na convicção de que cada homem só encontra a sua plenitude ontológica por referência à Nação a que pertence, Pátria e Mátria, raiz indispensável e matriz conformadora da sua existência e acção.
Afirmar e defender a existência e continuidade da Nação Portuguesa, livre e independente, honrar os seus heróis e as figuras históricas que desempenharam papéis relevantes na sua origem e desenvolvimento, proteger a Língua Portuguesa e os Símbolos Nacionais, em particular a Bandeira e o Hino, são valores da Direita.

Valores que hão-de encontrar correspondência em políticas de direita nos diversos sectores, com destaque para a Educação e as Relações Internacionais.

Em segundo lugar, à identidade da Nação Portuguesa, modo particular de ser e estar português.
A consciência de termos nas mãos o nosso próprio destino, de sermos simultaneamente europeus, africanos, americanos e asiáticos, cristãos, judeus, muçulmanos e budistas, de aceitarmos de bom grado a diferença dos outros desde que aceitem a nossa, de não nos sentirmos superiores nem inferiores, de seguirmos a convivência pacífica como regra e a violência como excepção – assim se pode exprimir o essencial da nossa identidade como povo.
Identidade que há que reconhecer e preservar, porque não se pode abrir ao outro quem não se conhece e estima a si próprio.

Em terceiro lugar, ao papel de Portugal no mundo contemporâneo.

“Portugal foi grande quando se abriu ao Mundo e pequeno sempre que se fechou sobre si próprio”. O Portugal que o mar uniu em vez de dividir continua aí: sem exércitos nem fronteiras, mas com a sua língua e a sua cultura humanista, uma e outra permanentemente enriquecidas e recriadas pelas contribuições de outros povos, línguas e culturas.

Este Portugal orgulha-se do seu passado pluricontinental e multirracial, olha sem complexos os povos com que conviveu, segundo a marca própria de cada época, ao longo dos últimos quinhentos anos, vê no estabelecimento de relações preferenciais com eles, numa base de comunidade e nos mais diversos domínios, o seu desígnio nacional para o presente século. Existência, identidade e visão pluricontinental e multirracial da Nação Portuguesa – eis o debate essencial que urge fazer, para que nos possamos entender e assumir, com plena consciência e liberdade, a tarefa, sempre renovada, de cada geração: continuar Portugal!
João Almeida Garrett
In Nova Vaga, nº 6

A Direita Das Direitas

… A Direita cultiva a liberdade e a responsabilidade pessoal, perante a sociedade civil e a comunidade política, e promove um forte sentido de independência nacional, relativamente ao qual define a sua estratégia vital e a sua relação com as demais Nações …

A pluralidade das direitas é um dado unanimemente aceite. A tal ponto que, ao epíteto, tantas vezes arremessado com sentido pejorativo, quase sempre se acrescenta um adjectivo, para carregar ou atenuar o tom.

O problema histórico recente das direitas não tem sido a multiplicidade, mas sim a divisão, que é o que, de facto, atenta contra a unidade. Entre discernir e combater, a política e os acontecimentos, à luz da sua mundividência, ou abdicar de pensar, conformada e satisfeita com a ditadura cultural e política imposta pela esquerda, a Direita andou dividida nas últimas décadas. Até se guerreou por razões pessoais.

Superar as divisões no respeito pela multiplicidade para reforçar a unidade da Direita, exige uma volta às raízes, uma definição, ou redefinição, dos seus fundamentos.

E estes começam por ser antropológicos ou filosóficos – em todo o caso metapolíticos – e assentam no realismo da condição humana, também por outros conhecido como pessimismo antropológico, querendo com isto significar que reconhecemos no homem real, comum, fraquezas, debilidades, limitações, que não é perfeito, nem vive num mundo perfeito. Consideramos a existência humana incontornavelmente marcada tanto pela imperfeição e pela contingência, quanto pela capacidade de superar a sua particularidade e se universalizar.
É igualmente denominador comum à Direita, que essa contingência e imperfeição, que envolve a existência humana, não decorrem originariamente das estruturas históricas da sociedade, mas sim da própria natureza humana, ao contrário do que pretendia Rousseau.

A Direita vê nessas estruturas sociais – família, associações profissionais e culturais, municípios e Nação – uma afinidade e uma continuidade com a natureza humana, uma exigência da natureza social de cada homem, e não invenções históricas de “tempos obscuros” – como se a lucidez e a perfeição assistissem em exclusivo, desde a noite dos tempos, aos homens de hoje. São estas estruturas que integram cada homem na sociedade e lhe permitem, mais facilmente, superar a sua particularidade e se universalizar.

A Direita é, assim, anti-utópica: recusa claramente as utopias, sejam elas o “bom selvagem”, o igualitarismo de todas as formas de vida e de classe, a sociedade sem classes, a liberdade absoluta, o mundo perfeito, o paraíso terrestre ou, mais recentemente, o fixismo climático. E, consequentemente, recusa todos os mecanismos políticos, duvidosos e manipuladores, ao serviço dessas utopias, tais como a luta de classes, a demolição ou redefinição das estruturas históricas da sociedade, o providencialismo estatal, o catastrofismo ambientalista e o pânico climático.
Historicamente, talvez tenha sido no que toca ao papel do Estado que as direitas mais divergiram. Porém, mesmo as mais estatalistas nunca pretenderam substituir ou demolir estruturas históricas como a família, as associações profissionais e culturais, os municípios e as Nações, como o fez, e faz, a esquerda.

É comum à Direita a primazia e o respeito pela pessoa humana e pela iniciativa privada. A Direita sabe que o Homem não muda na sua essência. O que pode mudar, e muda, são os detalhes e as circunstâncias da vida e o conhecimento que deles se tem. Essas circunstâncias podem ser tais, que a Direita deva proclamar explicitamente aquilo que está implícito na sua mundividência: que o ser humano concreto não é subordinável, involuntária e inocentemente, a lógicas e leis do mais forte, isto é, o respeito pela dignidade humana desde a concepção à morte natural. A Direita proclama a primazia e a anterioridade da iniciativa privada na ordem económica e social, enquanto consigna ao Estado um papel subsidiário e supletivo. Pois ainda hoje, em matéria de ensino e de saúde, a ideologia esquerdista em vigor impõe exactamente o contrário.

A Direita cultiva a liberdade e a responsabilidade pessoal, perante a sociedade civil e a comunidade política, e promove um forte sentido de independência nacional, relativamente ao qual define a sua estratégia vital e a sua relação com as demais Nações.

Pode haver várias direitas, mas só há uma Direita.

Uma Direita Nova, muito antiga.

Tão antiga como o próprio Homem.
Manuel Brás
In Nova Vaga, nº 6

O Direito Pela Direita

… A diferença radical, no domínio dos princípios e valores, entre a Direita e a Esquerda deve procurar-se no modo como se colocam ante o Homem, a evolução dos seus comportamentos, e como caminham para o progresso …

Propõem-me que discorra sobre o que é a “Direita”. Não enjeito o encargo, embora considere que ao debater questões ideológicas é inevitável a tentação de relevar menos a intenção de fazer história do que o propósito de ordenar o futuro. Julgo, aliás, necessário iniciar a análise com duas prevenções sem as quais decerto pecaria a inteligibilidade do discurso sequente. A primeira é a de que, sem prejuízo de ter tido sempre intervenção política e de me não furtar a preencher os espaços para onde me convidam, nunca me considerei um político, abomino quase toda a política que se faz, e nunca, seguindo a exortação de Cícero, que pude ler no original pelos meus 17 anos, antepus à consideração ou à amizade pessoal qualquer propósito de afirmação ideológica ou política.

Reconheço-me, pois, profundas limitações. Revejo-me, aliás, na conhecida constatação de Joseph Kessel no discurso de recepção na Academia Francesa: em política não se pode ser nem cortez na polémica nem sereno na revolta. Como eu procuro ser uma coisa e outra e - pior - como me orgulho disso, aceito que não sou, decerto, um político. A segunda prevenção é a de que tenho por certo que não é possível empreender qualquer discussão útil sobre o que quer que seja sem que previamente aceitemos um certo significado das palavras. Esta própria comunicação não poderá compreender-se, nos seus métodos e pressupostos, se não for claramente enquadrada, decerto com alguma carga pessoal, mas sempre com o mínimo de paixão e o máximo de rigor, numa explicação do que, do ponto de vista do seu autor, é a “Direita” e por isso do que é a “Esquerda”, sabendo que ambas se reclamam as virtudes e rejeitam defeitos, que uma e outra, entretanto, consideram características ­distintivas da sua oposta.

Se é legítimo julgar a natureza pelos frutos e não pelas árvores, suponho que devemos fazer um sério exame de consciência em torno de como concebemos a oposição indivíduo/estado, indivíduo/nação, nação/estado. A opção nas prevalências dirá se estamos à esquerda ou à direita. Bem se sabe que a origem dessas expressões - “Direita” e “Esquerda” ­remonta ao longínquo ano de 1789, quando os deputados da assembleia constituinte francesa partidários da autoridade real e dos privilégios da nobreza se sentaram do lado direito de hemiciclo, enquanto os partidários das liberdades se sentaram do lado esquerdo. Mas logo aí se instalou a polémica pois não era pacífico explicar a razão dessa banalidade: enquanto os deputados da ala direita se reivindicavam a iniciativa e o direito de se terem sentado naquele lugar - que os áugures ­recomendavam - e que o faziam por terem obrigado os adversários a acantonarem-se à esquerda, esta, lembrando, então como agora e sempre excessivamente, que o seu lugar era onde ficava o coração do povo, pretendia que fora a Esquerda, pelo contrário, a escolher de caso pensado aquele lado e a empurrar os adversários para o outro, pouco se importando que os sacerdotes do templo, interpretando os presságios, prognosticassem qualquer desgraça.

A Direita e a Esquerda constituíram-se, assim, em redutos oposto mas só aparentemente por causa da geografia da sala: de um lado, a autoridade, a tradição, a ordem, a permanência; do outro, em contraponto, a afirmação, divergente daquelas, da defesa das liberdades públicas e das igualdades. O que se seguiu até aos nossos dias foi uma progressiva e contínua aproximação, umas vezes teórica apenas, outras levada à prática, dos objectivos de um outro e outro dos lados: a Direita, procurando sacudir o anátema de adversária das liberdades, e a Esquerda, apesar da “ditadura do proletariado” e de acostagens ao princípio da autoridade, reivindicando a primazia na luta pela defesa dos direitos liberdades e garantias fundamentais.
A diferença radical, no domínio dos princípios e valores, entre a Direita e a Esquerda deve procurar-se no modo como se colocam ante o Homem, a evolução dos seus comportamentos, e como caminham para o progresso: enquanto a Direita crê na existência de uma “ordem natural” que disciplina a sociedade e cujas leias devem permanentemente pesquisar-se, segundo as regras do que se chamou o “empirismo organizador”, a Esquerda, pelo contrário, acentua sempre - negando a existência dessas leis e muito mais a sua imutabilidade - a força da vontade humana, a primazia desta sobre a ­realidade, o papel da imaginação criadora, em suma, um conjunto de preceitos arrumados sob a denominação de “voluntarismo democrático”, oposto àquele.

Não parece necessário precisar mais as coisas; o que ficou dito, sendo pouco, procurou tão somente enquadrar a questão, numa perspectiva basilar que não fosse dogmaticamente rejeitável por qualquer dos lados, sem querelas de maior. Seria interessante discernir numa perspectiva mais aprofundada, outras particularidades e estudá-las, sobretudo nos nossos dias, designadamente analisar como algumas “direitas” e “esquerdas” se construíram a partir das iniciais formas puras e como daí foram evoluindo. Vale a pena equacionar três ou quatro questões que são causa de algumas angústias e decerto de muitas paixões: haverá uma só Direita e uma só Esquerda, ou há várias Direitas e várias Esquerdas? Há Direitas e Esquerdas que se vão movendo no cenário político de um para outro lado, mudando de posições relativas, como modo de assegurar a eficácia prática das suas propostas ou não passam de falsos mutantes que não abandonam nunca os seus conceitos, apenas os adaptam?

Por outras palavras: Os monstros que a Direita e a Esquerda geram são-no por via da necessária desenvolução do ideal de onde partiram, ou não passam de aberrações da natureza que a ideologia repudia, são um tipo do género, que partilha o património ideológico de uma e outra ou são outra coisa, um tertium genus, que fica de fora delas? À Direita e à Esquerda, contudo, ninguém aceita, contudo, acolher-se ao guarda chuva de uma definição estática do seu enquadramento ideológico: somos da Direita ou da Esquerda, somos o que somos não porque somos, mas porque procuramos ser, e essa procura é contínua, constitui um “perpetuum mobile”.
Tenho para mim que o homem de direita em Portugal, e com esse arquétipo me identifico - conjugando a síntese de António Barreto com o pensamento de Jorge Braga de Macedo, José Adelino Maltez e Mendo Castro Henriques - se empenha em ir construindo uma cada vez mais perfeita e justa articulação das liberdades atribuíveis a cada cidadão com as “pertenças históricas”: a nacionalidade, a cultura, a Europa, o “abraço armilar” da Lusofonia ao Império, que são os valores que subjazem à “ordem natural” que inspira a nação portuguesa.
In Nova Vaga, nº 6
Luíos Teixeira e Melo

A Grande Casa Da Direita

… Julgo que Fernando Pessoa definiu parte do Liberalismo de forma soberba: “doutrina que defende que o indivíduo tem o direito de pensar o que quiser, de exprimir o que pensa como quiser, e de pôr em prática o que pensa como quiser, desde que essa expressão ou essa prática não infrinja directamente a igual liberdade de qualquer outro indivíduo …

Confesso que é um dos meus sonhos: a construção de uma grande casa onde caiba toda a direita. A que existe e a que porventura ainda não foi inventada. Pelo menos até agora.

Juntar conservadores, liberais, democrata-cristãos e todos os filhos de uma Nova Democracia.
Não faz hoje qualquer sentido fazer oposição ao mesmo bloco, muitas das vezes num clima de guerrilha. E como em todas as guerras, as civis são as mais corrosivas.

Urge ultrapassar o clima de um grupo de pessoas que se odeiam cordialmente. É preciso acabar com o marasmo à Direita, que vai permitindo que Trotskistas tenham maior peso eleitoral que forças democráticas fundamentais para o enraizamento permanente da cultura política ocidental.
Falamos muitas vezes de Direita, mas importa clarificar o que se entende por Direita. Deve a sua designação original ao facto de, nos Estados Gerais Franceses, reunidos em 1789, os Monárquicos, que apoiavam o Antigo Regime, terem tomado o lugar à direita do rei. Evidentemente que com o tempo, essa distinção tornou-se verdadeiramente obsoleta, e o sentido de direita e esquerda não encontra qualquer eco, nos dias de hoje, naquela diferenciação inicial.

Entre a Direita temos pois várias correntes. Desde logo o conservadorismo.
O conservadorismo é uma corrente político - filosófica que defende que as melhores instituições não são aquelas que resultam de projectos feitos a partir do nada, mas sim de uma evolução gradual e “natural” ao longo dos séculos.

Para quê a precipitação, as experiências não testadas, a corrida desenfreada às leis revolucionárias, como se um país mudasse por decreto.

Descontando a demagogia de uns, quem é que não pretende conservar a sua família, os seus bens, o meio ambiente, os seus amigos?

Transportada esta ideia para a concepção ideológica do conservadorismo, percebemos rapidamente quais os princípios que o inspiraram. A vontade de construir uma sociedade melhor, mais justa, onde os direitos coabitam em harmonia com os deveres.
Rejeito em absoluto a tese que vê no conservadorismo um pessimismo antropológico, a ideia de que o homem é naturalmente egoísta. Mas também não aceito o mito do bom selvagem, para quem a sociedade é sempre a culpada de todos os males.

É por isso que a Família é um elemento essencial para os conservadores. É ela que deve socializar o indivíduo, educando-o, passando-lhe todo um conjunto de valores morais e éticos.
Se todos pensarmos bem, não é a solução mais apropriada? Quem melhor que os nossos pais e avós, para nos integrarem na sociedade.

Infelizmente, certa esquerda radical, que vê na destruição das instituições uma possibilidade de retirar dividendos, não hesita em denegrir e reduzir à mínima expressão a instituição Família. E para atingir esse fim não olha aos meios que emprega.

Ainda no pensamento conservador, há uma outra ideia fundamental: a noção de Pátria, e de tudo o que ela representa. Mais que a terra onde nascemos, é a alma de toda uma Nação que os conservadores querem preservar.

Felizmente que nesse aspecto Portugal evoluiu nos últimos anos, sendo já possível cantar o Hino e falar em orgulho da Pátria, sem sermos acusados de reaccionários. Felizmente para Portugal e para os portugueses.

Quanto ao Liberalismo, é uma corrente política que abrange diversas ideologias históricas e presentes, que proclama como devendo ser o único objectivo do governo a preservação da liberdade individual.

Julgo que Fernando Pessoa definiu parte do Liberalismo de forma soberba: “doutrina que defende que o indivíduo tem o direito de pensar o que quiser, de exprimir o que pensa como quiser, e de pôr em prática o que pensa como quiser, desde que essa expressão ou essa prática não infrinja directamente a igual liberdade de qualquer outro indivíduo.

Gostaria de destacar entre os seus mais ilustres pensadores, Friedrich Von Hayek. Na sua obra notável, o “ caminho para a servidão “, escalpeliza de forma ímpar o socialismo, desmontando as suas utopias.

Que ninguém tenha dúvidas, a ideia de esquerda é mais vendável que a de Direita. Precisamente porque inunda as mentes de utopias, querendo fazer acreditar que a igualdade é um direito adquirido.

À custa dessas perniciosas falácias, certos (muitos) sectores da sociedade acham que têm direito a casa paga pelo estado, salário pago pelo estado, propinas pagas pelo Estado.

É por isso mesmo que a Nova Direita tem de ter um discurso positivo mas incisivo, que sem rodeios acabe de uma vez por todas com esta apropriação colectiva da mentalidade. E que de uma vez por todas elucide os mais distraídos, que é pelo trabalho que melhoramos a nossa condição de vida, e contribuímos para o enriquecimento do país.

É por tudo isto que aquilo a que foi chamado Conservadorismo Liberal me parece parte da chave para mudar Portugal.

Demorará, é certo, mas enquanto tivermos forças para difundir a necessidade de fazer evoluir o país, valerá sempre a pena.

Que a Direita em Portugal saiba estar à altura dos desafios que se avizinham.
In Nova Vaga, nº 6
Filipe Barbosa

Política E Religião Neste Mundo

Nos Estados Unidos não há uma igreja oficial mas a Religião está presente em toda a sociedade. Exemplo disso é que o Presidente termina a sua tomada de posse com o juramento perante a bíblia e as palavras «so help me God». O país apresenta, no entanto, uma relação entre Política e Religião bastante sui generis, em que a segunda se encontra directamente envolvida nas chamadas “guerras culturais” (aborto, eutanásia, casamento de homossexuais, etc.) entre esquerda e direita, ou entre “liberais” e conservadores. Mas a liberdade religiosa prevista pela constituição na sua primeira emenda visa especialmente impedir a criação de uma religião oficial, por razões históricas ligadas aos conflitos religiosos no Reino Unido, enquanto protege a liberdade de expressão a todos os níveis, incluindo o religioso, da interferência dos poderes públicos ou do poder político.

Os países onde a influência do marxismo mais se fez sentir, especialmente os países latinos do Sul da Europa, são aqueles onde a pretensa neutralidade do Estado e a imposição de uma pseudo religião ateia se verificam. Significa isto que sob o argumento de se permitir a liberdade religiosa, acabou por se impor a vontade do Estado (ou mais exactamente a dos que a definem) e confinar a Religião para o domínio privado, limitando a liberdade de expressão dos indivíduos (em clara oposição ao que prevê a constituição norte-americana) e forçando a “passagem para a História” das tradições culturais enraizadas nos povos.

Nestes países o fenómeno religioso é muito mais tolerado, por vezes de uma forma desdenhosa e condescendente, do que valorizado. Continua a ser desculpado pela ignorância e simplicidade do povo, que ainda não foi banhado pelos raios iluminados do “progressismo”. Mas estes detentores da «verdade absoluta» não deixam de se preocupar com as populações e por isso velam para que a Igreja esteja o mais possível confinada a espaços reduzidos. O seu voluntarismo levou à criação de Estados onde o controlo democrático e a responsabilidade individual são desprestigiados em nome do interesse colectivo e do “laicismo” iluminado. A caridade religiosa, antes criticada, foi agora “recuperada” através de subsídios estatais que promovem a inactividade, a perda de competências e a desagregação de famílias, incentivando as mães solteiras. Ao contrário do que se passa no Norte da Europa, ou nos EUA, criaram condições para a permanência de elevadas taxas de desemprego e de desemprego de longa duração, onde as pessoas são ocupadas em inúmeros programas estatais sem interesse, e em que temporariamente fingem esquecer a situação em que se encontram.

Nos países do Sul da Europa, como França, Itália, Espanha e Portugal, a taxa de desemprego é mais elevada e isso não é sinal que o efeito pernicioso da Religião se faça sentir mas sim de que é errada a opção por um estatismo “laicista” militante que se sobrepõe aos interesses dos indivíduos e das populações. Com a ascendência do socialismo a política ”oficial” foi-se cimentando progressivamente um sentimento de repulsa anti-igreja, em que a “crença” na neutralidade do Estado se transformou numa pressão social contra a dimensão pública do fenómeno religioso.

Os exemplos da prepotência “laicista” são muitos e alguns bem recentes, pois a História continua actual só que agora num contexto democrático. A recusa da menção de Deus e da influência do cristianismo no preâmbulo do projecto da Constituição Europeia, o chumbo de Rocco Bottiglione para Comissário Europeu, a proibição do uso de véus ou de cruzes em locais «públicos» em França ou a polémica das cruzes nas escolas em Itália e em Portugal são tudo versões actuais que confirmam a atitude “fracturante” e radical que caracterizou a ascendência da ideologia socialista/marxista e que demonstram a importância que esta ainda tem. A aplicação dos ideais marxistas nas sociedades europeias traduziu-se pela oficialização da intolerância face às religiões e da limitação da liberdade de culto dos indivíduos.

(Excerto)

Ricardo Pinheiro Alves

In Nova Vaga, nº 5

O Estado E A Igreja

O Estado-vanguarda e a Igreja em Portugal.
(Uma perspectiva histórica)

"Só ao Estado compete formar os espíritos, só a ele pertence modelar as forças vivas da nação. Só ele sabe fazê-lo e só ele tem recursos para o fazer." Miguel Bombarda, A Reacção em Portugal

1
As palavras em epígrafe, da autoria do republicano Miguel Bombarda, apresentam uma concepção do Estado que, à partida, desapareceu do horizonte político. Esta forma vanguardista de Estado não podia conviver pacificamente com o poder espiritual exercido pela Igreja Católica sobre o povo português.

Este artigo tem por base dois casos separados por quase oitenta anos, que ilustram a tensão entre o Estado-vanguarda e a Igreja: o primeiro, o “cisma” no clero católico entre 1833 e 1841; o segundo, mais conhecido, a I República (1910-1926) e a sua política laicista e anticlerical. Começarei por apresentá-los de forma sucinta, para depois expor algumas reflexões sobre a relação entre o Estado e a Igreja.

2

Ainda antes da assinatura da Convenção de Évora-Monte, o governo da regência de D. Pedro aprovou leis que iam ao encontro do carácter racionalista e secular do liberalismo oitocentista, e do reforço do poder do Estado em relação à Igreja.

Em 1833, formou-se a Comissão de Reforma eclesiástica, que impôs a substituição da antiga hierarquia católica, por vigários capitulares eleitos pelos cabidos sob injunção governamental. No ano seguinte, o Ministro da Justiça, Joaquim António de Aguiar, dentro de uma lógica anticongregacionista, fez aprovar a supressão das ordens religiosas e o confisco geral e absoluto dos bens de “mão-morta”. No início de Julho, os Jesuítas foram expulsos.

Este era um cenário de afirmação do Estado liberal cuja raiz ideológica iluminista justificava a necessidade de colocar a Igreja ao serviço do progresso humano, e de afastar aqueles que haviam apoiado o “partido” miguelista. A Igreja, um dos pilares do regime absolutista derrotado, tinha agora que se adaptar aos novos tempos, nem que para isso se substituíssem os “maus” padres por párocos fiéis ao regime liberal.

Estas medidas agravaram as relações entre o Estado português e a Santa Sé, levando mesmo à ruptura ainda em 1833. Desde então, a oposição aos liberais (miguelistas e parte do clero) fez circular a ideia de que o Papa havia declarado cismática a Igreja portuguesa. Perante o perigo de excomunhão, populações das dioceses de Braga, Porto, Bragança, Viseu, Aveiro e Coimbra, recusavam participar em actos de culto oficiados pelos novos párocos ou expulsavam os padres “liberais”. O governo respondeu através da ocupação militar das comunidades revoltadas e da imposição da presença dos fiéis nos actos de culto católico obrigatórios segundo a Igreja Católica, sob pena de processo judicial.

A reacção do governo foi apodada de “atentado à liberdade de consciência religiosa” pelo deputado miguelista Caetano Beirão, ao que o Ministro do Reino, Costa Cabral, respondeu tratar-se de uma questão meramente política, de reconhecimento da autoridade legítima e de obediência à lei.[1]



3

Para os republicanos chegados ao poder em 1910, havia um obstáculo fundamental à construção da democracia – a ausência de uma opinião pública consciente. Tornava-se, portanto, urgente libertar o povo da influência da religião católica que impedia os indivíduos de se tornarem cidadãos. Era preciso expulsar Deus da Constituição,[2] expulsar de novo as ordens religiosas que haviam voltado a entrar no País desde os finais da década de 50 do século XIX, e que tinham um papel importante no campo da assistência e do ensino, enfim, era necessário separar completamente a religião da política, entregando ao Estado as funções de formação moral e cívica dos indivíduos. As opções e as práticas religiosas eram remetidas para a esfera privada. E assim se fez. Foi publicado o decreto de separação das igrejas do Estado (20 de Abril de 1911), ordenada a expulsão das ordens religiosas, reconheceu-se o divórcio, impôs-se o registo civil obrigatório e a aconfessionalidade do ensino, extinguiu-se a Faculdade de Teologia e aboliram-se os juramentos religiosos. As manifestações exteriores de religiosidade (procissões, funerais, etc.) foram também condicionadas. Com esta legislação, os republicanos fizeram uma ruptura com a forma como a religião e a política se relacionavam, remetendo as opções religiosas, e neste caso particular, o catolicismo para a intimidade de cada indivíduo.

Estas medidas provocaram a reacção da hierarquia católica, mas principalmente das populações rurais de forte sentimento religioso. A real dimensão desta resistência que implicou que o Estado, tal como no século passado, recorresse ao envio de tropas para as localidades insurgentes, ainda não é conhecida.[3] Sabemos, isso sim, que o vanguardismo republicano acabou por voltar contra o regime largos sectores da sociedade portuguesa.

4

Quer os liberais do século XIX, quer os republicanos do século XX eram ideologicamente descendentes do Iluminismo que considerava que a História era um progresso constante. Para os philosophes, o homem tinha a capacidade de progredir até alcançar a perfeição através da Razão. O homem novo nascido desta inevitável evolução seria um homem liberto das peias do obscurantismo e da superstição, frutos da ignorância e do poder da Igreja. Este era um obstáculo ao desenvolvimento e ao progresso e, necessariamente, ao cumprimento do destino da História – alcançar a Felicidade.

Esta meta só poderia ser atingida através de um Estado interventor. Cabia ao Estado mudar as consciências, “formar os espíritos”, nas palavras de Miguel Bombarda. O Estado devia erradicar a religião irracional, para implantar o Império da Razão, condição fundamental para a concretização do progresso humano. O Estado tornava-se a vanguarda nesta luta pelo controlo das consciências. Para triunfar, o Estado não podia respeitar a autonomia e a auto-suficiência da sociedade civil.

Foi esta concepção do Estado que predominou durante o período jacobino da Revolução Francesa, e que liberais e republicanos tentaram adaptar a Portugal. Menos acentuado no primeiro caso, dado que a Carta Constitucional de 1826 definia o Catolicismo como religião do Reino, e devido às cedências a que os sectores mais radicais foram forçados. No Código Penal aprovado em 1852, estabeleceram-se mesmo penas para crimes cometidos contra a religião do Estado. Na República, pelo menos nos seus primeiros anos, o vanguardismo do Estado foi evidente. Considerando o povo presa fácil do obscurantismo religioso, tornava-se forçoso que o Estado assumisse a tarefa de o “iluminar”, de lhe mostrar a “verdade” da Razão e assim criar o homem novo. Não bastava remeter a religião para a esfera íntima, era necessário extirpá-la das consciências.

Esta concepção do Estado vanguardista, no limite, destrói o indivíduo, submete-o ao seu totalitarismo ideológico. Ao pretender suprimir a religião da vida pública e, afinal, da vida privada, contribui para a perda de valores fundamentais, para a afirmação do relativismo moral. Não viveremos nos nossos dias sob uma nova versão deste Estado-vanguarda, mais subtil, é certo, disfarçada sob o glamour das novas tecnologias e de discursos aparentemente despidos de ideologia?


Rui Manuel Brás

[1] Cf. Maria de Fátima Sá e Melo Ferreira, “Liberalismo, religião e política: o ‘cisma’ da Igreja Portuguesa e a questão da tolerância religiosa”, Ler História, nº33, 1997, pp.97-114.
[2] Fernando Catroga, “O Republicanismo em Portugal”, p.202.
[3] O historiador David Luna de Carvalho desenvolve presentemente um estudo sobre este tema com vista a tese de Doutoramento.

A Religião E A Política

Desde sempre que a religião, ou talvez melhor dizendo, a existência ou não, de convicções religiosas em cada pessoa, se tem constituído como factor dinamizador da doutrina, dos princípios e mesmo da acção política desenvolvida pelos partidos. Não será necessário invocar a influência da doutrina social da igreja católica em muitos partidos democrata-cristãos para comprovar isso mesmo.

Porque antes de se ser militante ou simpatizante de determinada formação partidária, é-se cristão (católico, protestante ou ortodoxo), muçulmano, budista, ismaelita, ou pura e simplesmente agnóstico, ou mesmo ateu.

Ora, os partidos são entidades que têm, ou deveriam ter, como objectivo central, segundo o respectivo entendimento de cada um, ajudar a melhorar a vida dos seus compatriotas.

É por isso natural que se detenham sobre as diversas facetas que constituem a vida em sociedade, imbuídos dos valores perfilhados pelos seus membros, e principalmente pelos seus dirigentes, e da sua visão sobre a comunidade. No fundo, que façam repercutir as suas convicções, princípios e valores para as regras que enformam a existência do Estado.

O caso mais recente e fortemente paradigmático das relações estreitas entre religião e política foi o que se prendeu com a atitude do putativo Comissário Europeu Rocco Buttiglione que, consistentemente com as suas convicções religiosas, no caso católicas, defendeu no plano político a tradução desses princípios em que acreditava.

Claro que o pensamento único e politicamente correcto da pretensa aristocracia política europeia logo considerou inadmissível essa conduta, de tal forma que até o intrépido chefe do governo italiano da altura acabaram por fazer vergar.

Mas verdadeiramente, será condenável que os políticos incorporem na sua prática aquilo que são as suas convicções religiosas, ou a sua inexistência? Parece-me que tal não só não é censurável, como o contrário é que seria criticável e revelaria seres neutros, nos quais não tendo a acreditar.

Por exemplo, não competindo ao Estado, na minha opinião, dizer quantos filhos deve ter uma família, ou mesmo se deve ter algum, já considero que é defensável que discrimine positivamente as famílias que, por exemplo, queiram ter mais de x filhos, em nome de princípios, valores e interesses do partido que estiver no Governo.

Igualmente é razoável que questões como o aborto, a eutanásia, o casamento, a adopção e tantos outros assuntos sejam regulados, tendo em conta a existência ou inexistência de convicções religiosas por parte dos políticos e que, portanto, eles perpassem para as regras dos respectivos institutos jurídicos as suas crenças e valores.


Apesar de sustentar que o Estado deve ser laico, estimo como inteiramente legítimo que um partido propugne no Governo propostas que reflictam ideias e posições que tenham nas suas raízes o pensamento católico ou de outras religiões; como também não posso deixar de concordar que, no caso de posições ateias ou agnósticas, elas sejam princípios orientadores da acção política.

É normal que um partido que é composto por pessoas que por sua vez exercem uma determinada função política, para ela transportem aquilo que é o produto da sua vida, nas suas múltiplas vertentes e em particular as suas bases mais profundas de modo de ser e portanto de agir. Até porque se exige aos políticos muito mais do que o mero controlo do défice, a sustentabilidade da segurança social ou a definição de políticas económicas. E mesmo nestas, não deverá ser indiferente a ausência ou existência de convicções religiosas.


Miguel Félix António
Jurista
In Nova Vaga, nº 5

A Deslocalização Do Piano

A esquerda quer editar uma lei que proíba que as empresas se instalem onde produzem melhor e onde ganhem mais dinheiro. Compreendo. As empresas e a esquerda. As empresas, porque na economia manda a aritmética. A esquerda, porque cada vez que uma empresa vai embora, apesar de ganhar capital de queixa social, perde delegados sindicais, comissões de trabalhadores e créditos de horas para a militância do protesto. Nunca se viu, não sei porquê, o desemprego ser um alfobre de sindicalistas.

Mas na cultura, certa esquerda age ao contrário. Deslocaliza. Parte. Emigra. Foge da Pátria. Os portugueses emigraram muito na década de sessenta e setenta do século passado. Para ganhar mais dinheiro, confessavam, então com simplicidade. Com o tempo, a emigração portuguesa tornou-se uma emigração de luxo. Hoje, emigram os cérebros, como se diz na tecnocracilândia e os futebolistas, não querendo com isto dizer que estes não têm cérebros. Mas fazem-no pela mesma razão que a primeira geração de emigrantes. Para ganharem mais dinheiro.

Na cultura, emigrou há uns anos Saramago. Suspeito que por amor e por panache. O amor não se discute. Quanto ao panache, tem um certo chique morar numa ilha vulcânica e falar castelhano. Depois dos saneamentos gonçalvistas de 1975 que fez como comissário político do PCP no Diário de Notícias, achou a Pátria curta para tanto talento e foi-se. Neste caso julgo que a Pátria não foi excessivamente lesada. Ademais, o homem vem cá dizer uns disparates de vez em quando, para não perder o número de contribuinte.

Agora, emigrou a pianista Maria João Pires. Mas desta vez, o facto merece análise mais profunda. A senhora, assim uma espécie de Saramago do piano (embora, é justo reconhecer, seja muito melhor no piano do que Saramago nas letras), denunciou ser “vítima de uma verdadeira tortura”. E foi-se. Para fugir aos “malefícios de Portugal”, seguiu para o Brasil, onde como é sabido não há corrupção de esquerda, insegurança de esquerda e favelas de esquerda. Há até fome de esquerda, atento o fracasso do plano Lula para a fome zero. O Brasil, pois, um país que não tortura ninguém. Ah, é verdade, e também não há Morangos com Açúcar, só há telenovelas.

Porquê torturada? Não disse. E aqui, abre campo ao galope das suspeitas. A pianista criou um louvável projecto cultural e musical em Belgais, no interior esquecido e ostracizado. Óptimo. Estudar e exercitar as artes é bom em qualquer lado, mas em Castelo Branco é certamente, além de original, necessário.

Pediu ajudas. Compreendo. E teve-as. Teve o apoio dos ministérios da Educação e da Cultura, da Câmara Municipal de Castelo Branco, de um banco espanhol, a Caja Duero, da Fundação Avina e da Yamaha Pianos. Só o ministério da Educação, a título de financiamento dessa experiência pedagógica e educativa “alternativa”, desembolsou 1,8 milhões de euros, pagos em 24 prestações trimestrais. O ministério da Cultura foi mais contido: há três anos forneceu 65 mil euros, através de dois institutos públicos da respectiva área, mas como as despesas não foram justificadas (maçadas!), cortou-se no bodo.

Ninguém percebe, assim, em que consistiu a tortura. O que faz com que a atitude da pianista sobressaia incompreensível e, como tal, ou gratuita, o que uma artista do seu calibre não fazia antever, ou despeitada e vingativa, o que é feio. O que quereria Maria João? Rubrica específica e vitalícia com o seu nome no Orçamento? Não haveria piano que aguentasse, porque as teclas quando nascem são para todos…
Jorge Ferreira
In Nova vaga, nº 5

A Europa Rastejante

Escreve-se por aí e por todo o lado, a propósito do Líbano, que a Europa anda indecisa . A Europa não anda indecisa; pelo contrário: a Europa rasteja cheia de decisão. Porque, liderada pelos seus intelectuais orgânicos, sempre que vislumbra, empunhado com decisão, chicote pela frente, a Europa afocinha na lama e rasteja. Afocinhou na lama e rastejou aos pés de Hitler: “Antes castanhos que mortos…”. Afocinhou na lama e rastejou aos pés de Estaline e seguidores: “Antes vermelhos que mortos…”. Afocinha na lama e rasteja, cabeça para Oriente e rabo para Ocidente, aos pés de imãs, sheiks e aiatolas vários: “Antes negros que mortos…”. Esta Europa e estes europeus saídos da I Grande Guerra e da destruição do Império Austro-Húngaro estão mortos e ainda não perceberam.

Estão mortos porque deixaram de ter filhos. Agora têm cães, de raças ridículas, cães perfumados, engalanados e mal-educados. E de certo modo ainda bem, porque quando têm filhos, educam-nos pior do que educam os cães. Estão mortos porque deixaram de segregar verdadeiras elites. Só para focarmos o universo político em três países europeus de primeira plana: alguém acredita que Chirac, Zapatero ou Prodi teriam ultrapassado, na Europa de há cem anos, a fasquia da presidência de uma câmara municipal de terceira linha?

Estão mortos porque mergulharam no culto da Igualdade, movidos pela única emoção que lhes resta, a inveja. E conseguiram, finalmente, atingir a igualdade. A única que existe: a igualdade dos cemitérios. Estão mortos, finalmente, porque esqueceram o único valor insubstituível, porque matricial da cultura e da civilização europeias: o valor da liberdade. Para a Europa e para os europeus tudo está bem desde que, a horas certas, lhes enfiem, pelas grades da prisão, a gamela. Mesmo que a gamela lhes seja atirada à cara e tenham, para comer a sopa derramada, de lamber o chão.

Escravos, há cinquenta anos, de Estados que fazem, nas suas vidas, a chuva e o bom-tempo, os europeus habituaram-se a rastejar, no fascínio pela força, pela prepotência e pela brutalidade. Este é o verdadeiro retrato da Europa e dos europeus. O nosso retrato. E, mais uma vez, apenas uma réstea de esperança de não sucumbir: A Inglaterra que, como sempre, resiste, resiste e resiste...


Diogo Pacheco de Amorim

In Nova Vaga, nº 5.

18 Outubro 2006

Está Quase A Sair Mais Um Número

Problemas relacionados com a paginação e impressão atrasaram a saída do número de Agosto, da revista NOVA VAGA que tem como tema de fundo "A POLÍTICA e A RELIGIÃO". O facto suscitou já várias perguntas feitas pelos assinantes e leitores habituais. Estamos todavia em condições de informar que a revista estará à disposição dos leitores já no início da próxima semana. Adiantamos ainda que este número apresentará, entre outros, testemunhos do Director do Gabinete de Informação da OPUS DEI, da Presidente da Associação MULHERES EM ACÇÃO, do Padre Gonçalo Portocarrero e do Almirante - Médico Joaquim Félix António.

Ainda segundo apurámos a revista apresentar - se - á repartida pelas seguintes secções: Política e Religião; Livres Pensadores; Economia; Pontos de Vista e Crónicas da Cidade. Os habituais colunistas Diogo Pacheco de Amorim, Hugo Ribeiro da Silva, Jorge Ferreira, Filipe Barbosa e João Almeida Garrett, marcam presença com textos actuais e polémicos.A não perder!

05 Julho 2006

Direito De Propriedade E Herança (1)

"A introdução do tema é clara, liga-se com os direitos de propriedade, com a degradação dos direitos de propriedade desde o Século XIX e com toda uma mentalidade agravada pelo marxismo, que já começou com o Código Napoleónico. Têm-se vindo a degradar esses direitos de propriedade. Essa é a minha opinião. Julgo que é altura de começar a fazer barreira a isso em muitas áreas, nomeadamente, no direito das sucessões, na capacidade e na possibilidade que os pais têm de poder dispor, rigorosamente, com propriedade, dos seus bens, no sentido de propriedade total, seja, nomeadamente, no caso claro de herança, poder deixar fora da família, dentro da família, a um filho, aos filhos todos, a outro, ao cônjuge, ou não deixar a ninguém, a totalidade da herança, ou seja, poder dispor, da totalidade do património que reuniu ou que herdou durante a vida. Essa é a questão. "
Diogo Pacheco de Amorim

30 Junho 2006

A Ironia Do Euro

"O que seria de Portugal se não tem entrado na zona euro? O que seria de Portugal se os nossos governantes tivessem dado ouvidos àquelas criaturas que questionavam o rumo que o país levava e que punham em equação as vantagens de aderir ao euro. Estou a falar dos profetas do apocalipse. Estes, sem qualquer visão positiva do futuro, mais preocupados com o seu presente, defendem princípios sujeitos às suas motivações particulares em vez de se sentirem imbuídos de um qualquer interesse nacional. Se Portugal tivesse seguido estas teses premonitórias da desgraça hoje seríamos certamente um país atrasado relativamente aos demais países da UE, estaríamos na cauda da Europa, teríamos a esmagadora maioria das empresas sujeitas à agonizante falta de competitividade, já que haveria a necessidade de aumentar os impostos, teríamos, certamente, uma taxa de desemprego altíssima. Correríamos, também, o risco de não termos as nossas reformas garantidas. Não teríamos a força que tivemos junto de Bruxelas para defender a indústrias do calçado e dos têxteis nacionais da concorrência desleal dos países extra - comunitários. Se seguíssemos os desideratos destes profetas apocalípticos hoje estaríamos, concerteza, diante de um país onde as desigualdades sociais seriam gritantes."
Carlos Borges

Desleixo Na Regaleira

"Na Regaleira, a lembrança, se a quiser ter, terá de recorrer ao registo que fizer na sua memória ou na sua máquina fotográfica e quanto a informação, pode ser que tenha a sorte de ter um guia de espírito curioso e interessado que lhe possa facultar algum esclarecimento adicional.

Ao que, entretanto, soube, a razão para tal desinteresse é simples: é que sendo a Quinta da Regaleira propriedade da Câmara Municipal de Sintra, entende quem a administra (uma empresa municipal, como é evidente) que a edilidade terá de comparticipar com o sempre tão chorado subsídio que, só por si, a permita manter."
Sara Santos Costa

Poder E Contra-Poder

Era um homem culto e falou-me do muito que aprendera lendo e estudando e do pouco que conseguia aplicar depois de eleito. Antes de se despedir ainda disse «Admiro a vossa coragem, continuem a lutar por aquilo em que acreditam, esta é a melhor fase da vida política, quando se chega ao poder um homem sente-se tonto e embriagado, o que oferecemos à sociedade não representa cinquenta por cento daquilo que dávamos enquanto “contra-poder”».
Susana Barbosa

Os Feriados E A Independência Nacional

Que país curioso é o nosso! Entre feriados nacionais e municipais contam-se trinta: um mês de homenagem e devoção a inúmeras causas. Infelizmente na extensa lista não encontramos a independência de Portugal como Estado Soberano, encontramos sim a restauração da independência após 60 anos de opressão espanhola. Afinal que significado terá para o Estado português o Tratado de Zamora?
Sandro Neves

OTA E TGV

Recentemente, e contrariando as afirmações que desde há uns meses vinha fazendo sobre esta matéria, o Sr. Ministro das Obras Públicas considerou como sendo prioritária a ligação Porto-Vigo por TGV.

É caso para dizer que foi preciso que Espanha fizesse eco da importância primordial deste projecto, para que o Sr. Ministro constatasse o que “as gentes” do norte há muito reclamavam, e que de resto, vai totalmente de encontro à opinião da própria Comissão Europeia.

Só para se ter uma “pequena” ideia da importância deste traçado, atente-se a estes números: segundo um estudo das Universidades do Minho e Vigo, o traçado pode potenciar o PIB do Noroeste Peninsular em qualquer coisa como 17,1 mil milhões de euros, e a sua não realização implica a não criação de 100 mil empregos.
Franclim Ferreira

A Propósito De Imigrantes

As nossas empresas necessitam de trabalhadores mais qualificados, empenhados e disciplinados. O nosso nível de iniciativa (vulgarmente designado por “empreendedorismo”) é baixo. Os portugueses, de uma forma geral, habituaram-se à vida de rico sem o serem: a nossa produtividade é reduzida, a dependência do Estado (emprego público, saúde, rendimento mínimo garantido, rendimento social de inserção) elevada, o consumo privado assenta fundamentalmente em crédito e, dada a nossa estrutura produtiva e os hábitos dos consumidores, repercute-se negativamente na balança comercial. O perfil de qualificação dos trabalhadores portugueses é manifestamente insuficiente. Os jovens mais capazes e promissores emigram para universidades, centros de investigação e empresas estrangeiras.
João Almeida Garrett

28 Junho 2006

O Futuro Da União

O Prof. João Ferreira do Amaral disse à Nova Vaga como vê o futuro da União Europeia:

Destaques (21)

"a) definição da União como uma organização de estados soberanos e não como uma organização de cidadãos ou de povos.

b) definição das áreas onde a intervenção comunitária é necessária por se tratar da gestão de interesses comuns colectivos, ou seja, resultantes da vida de relação entre os estados membros e que constituem potenciais áreas de conflito. Essas áreas seriam: defesa e segurança nas relações entre estados, comércio livre, ambiente (apenas na parte que interessa a todos os estados), cooperação monetária (mas não moeda única) e coesão económica e social. A pertença dum estado à União implicaria a obrigatoriedade de aceitar e executar as políticas comunitárias nestes domínios. O enquadramento geral destas políticas exigiria uma decisão por unanimidade, mas a sua execução poderia ser atribuida a um órgão supranacional.

c) definição de áreas onde a regulação comunitária pode ser julgada útil por alguns estados membros, mas para as quais não seria exigível a sua aceitação como condição para pertencer à União (moeda comum, justiça, transportes, agricultura etc.). Seria também possível a um estado deixar de pertencer a um qualquer domínio sujeito a este tipo de regulação, mediante negociação com os anteriores parceiros. Seria assim institucionalizada uma União de geometria variável. Por norma, nestas áreas, a decisão seria tomada por unanimidade, mas com a possibilidade de algumas das decisões menos fundamentais poderem ser tomadas por maioria qualificada.

d) exigência de respeito pelos direitos humanos como condição essencial para um estado pertencer à União.

e) abolição do Parlamento Europeu eleito por sufrágio directo, sendo substituido por comissões parlamentares formadas com base nos parlamentos nacionais, uma para cada área da alínea a).

f) institucionalização do direito de secessão.
João Ferreira do Amaral

Destaques (20)

"Num processo de integração económica é normal que as regiões periféricas (no sentido de periferia económica, não necessariamente geográfica) se tornem ainda mais periféricas e as mais centrais ainda mais centrais. Por isso, faz sentido compensar esta evolução, que não é susceptível de correcção pelo próprio mercado, através de subsídios que compensem as externalidades negativas (ou seja, efeitos negativos sobre as empresas que o mercado não reflecte) próprias das regiões periféricas. A livre concorrência tem também de ser justa e por isso não é incompatível com subsídios compensadores devidamente fundamentados."
João Ferreira do Amaral

Destaques (19)

"A Europa só poderá ter um futuro de progresso se reconhecer a sua diversidade e se souber traduzir essa diversidade em instituições respeitadoras da autodeterminação (que inclui o autogoverno) de cada estado. Não é aceitável, em nenhum domínio da governação, um grau de centralismo igual e muito menos superior ao dos EUA, como infelizmente já acontece. O futuro da Europa não está na transformação num superestado, ainda que federal, mas numa organização de estados soberanos que gere em comum as potenciais áreas de conflito entre eles e que respeita e desenvolve os direitos humanos. É essencial, em particular, garantir que cada estado possa seguir uma política de direita ou de esquerda, consoante a opção do seu eleitorado e não seja obrigado a seguir uma governação tecnocrática dominante."

João Ferreira do Amaral

27 Junho 2006

O Estado Da União

Francisco Sarsfield Cabral, Director-Geral da Rádio Renascença, disse à Nova Vaga o que pensa do estado da União. Algumas ideias:

Destaques (18)

"Há leis muito diferentes nos vários Estados dos EUA. Mas a diversidade é ainda maior na UE. Decerto que, para criar um autêntico mercado único europeu, foi e é preciso harmonizar muita coisa, até como garantia de que a concorrência não é falseada por obstáculos não pautais à livre circulação de bens, serviços, capitais e pessoas. Mas a UE pretende manter a diversidade cultural e linguística, que considera uma riqueza da Europa. E no campo do direito, por exemplo, coexistem sistemas muito diferentes, como é o caso do britânico e do continental."
Francisco Sarsfield Cabral

Destaques (17)

"A integração europeia não visa criar uns Estados Unidos da Europa, semelhantes aos EUA, mas uma realidade original: nem um super-Estado federal, nem uma simples organização intergovernamental."
Francisco Sarsfield Cabral

Destaques (16)

"Não se justifica uma “constituição. Penso que foi um erro ter chamado “constituição” ao tratado constitucional chumbado nos referendos em França e na Holanda. Revela uma pretensão tonta a construir um super-Estado na Europa, o que não está no espírito da integração europeia tal como a entendo. O essencial desse espírito consiste na partilha de soberania entre Estados, que aumentam o seu poder ao actuarem em conjunto."
Francisco Sarsfield Cabral

Entrevista

Destaques da entrevista concedida por Jens-Peter Bonde, líder do "não" a Maaastricht na Dinamarca em 1992, a Ricardo Pinheiro Alves, publicada no nº4 da Nova Vaga:

Destaques (15)



"O EUD é uma aliança de pessoas com ideias semelhantes e não actua como um partido supranacional, como acontece com outros partidos europeus. O EUD é uma ferramenta para dar aos eleitores a possibilidade de expressarem os seus desejos de uma UE mais descentralizada, transparente e democrática. O EUD não é a favor do desmantelamento da UE mas de que tenha uma nova direcção, mais democrática. O EUD será, no próximo Parlamento Europeu, um importante componente de um alargado grupo de críticos da UE."

Jens-Peter Bonde

Destaques (14)

"E porque não pedir ao comissário europeu de cada país para comparecer regularmente perante o respectivo parlamento nacional para receber “instruções” dos eleitores e dos seus representantes nos estados membros? Antes de cada eleição europeia, cada estado membro poderia eleger o seu comissário e evitar que a Comissão Europeia seguinte fosse indicada por uma maioria em Bruxelas. "

Jens-Peter Bonde

Destaques (13)

"A constituição está “morta”. Seria educado “enterrá-la” formalmente e começar do início, em vez de se continuar o processo de ratificação de um tratado morto."

Jens-Peter Bonde

Destaques (12)

"Eu tenho lutado não só contra uma Europa federal mas também contra um estado unitário europeu. E enquanto alguns acreditam que o federalismo é um caminho para a descentralização, nós cremos que, no caso da UE, é uma forma de centralização já que não se pretende federar um estado mas muitos estados nação. A minha alternativa é uma Europa de democracias. Uma Europa que se baseie na cooperação real entre estados livres."

Jens-Peter Bonde

Já Saiu!

03 Junho 2006

Nº 4 da NOVA VAGA Está Prestes A Sair

Está por dias o lançamento do próximo número da revista NOVA VAGA e ao que apuramos com novidades. Para lá da análise ao futuro da União Europeia, com depoimentos a não perder, será inaugurada uma nova tribuna - a dos LIVRES PENSADORES - e nela vão surgir os resultados de diálogos/debates entre pessoas da Nova Democracia e Independentes.

O primeiro desses debates teve por tema "Direitos de Propriedade - A Herança" e pretende responder à seguinte pergunta: é justo que os titulares dos bens sejam obrigados, por lei, a deixar uma parte desses mesmos bens aos "herdeiros"? A chamada "protecção da Família" é mais importante que o direito a dispor da propriedade privada de forma totalmente livre?

17 Maio 2006

Destaques Do Próximo Número Da Nova Vaga

A Europa
A Constituição Europeia
O Direito de Propridade e as Heranças.

15 Maio 2006

Ainda a Conferência do Aviz


"O que se ouviu não deixa qualquer espaço para dúvida: mais do que uma justificação pelo texto saído de um período conturbado, porque pós- revolucionário, foi o entendimento quanto ao real papel do Estado na sociedade (não falo nem de nuances sobre a presença do Estado neste ou naquele sector, nem da forma como os políticos fazem a gestão das políticas públicas) e quanto ao sistema de governação.

As coisas não mudam em Portugal por qualquer inultrapassável problema; as coisas são o que são e estão como estão porque há uma base ampla, esmagadoramente ampla, entre o pensamento político dominante. E é aqui que se coloca o desafio àqueles que estão na Nova Democracia ou que com ela aceitam de forma livre e independente colaborar. Mais do que um partido ou um grupo como os outros, o que devemos ser é pioneiros na ruptura deste conformismo reaccionário e degradante em que a sociedade portuguesa se encontra."
Manuel Monteiro, no Democracia Liberal

12 Maio 2006

A Conferência Do Aviz (1)



Realizou-se ontem em Lisboa um animado debate promovido pela revista NOVA VAGA, no qual participaram os antigos presidentes da Assembleia da República, Almeida Santos e Mota Amaral.

Houve uma grande consonância de pontos de vista entre os dois, ficando claro que ambos defendem a actual Constituição, apesar de acharem que necessita de algumas alterações.

A Conferência Do Aviz (2)


Almeida Santos começou por fazer um apanhado da conjuntura envolvente na altura da elaboração da Constituição de 1976, tendo defendido que esta foi um travão ao PREC e evitou um maior deslizar para a esquerda.

A Conferência do Aviz (3)


Mota Amaral defendeu que a Constituição é boa porque permitiu o funcionamento do regime durante os últimos 30 anos, o que antes nunca tinha sido possível com qualquer outra Constituição elaborada em democracia.

A Conferência Do Aviz (4)

Confrontado com as propostas da NovaDemocracia, Almeida Santos referiu que não tinha a certeza de que o presidencialismo defendido pelo PND não funcionasse, mas que preferia ficar com o actual sistema que, quanto a ele, funciona bem, preferindo algo conhecido ao incerto.

11 Maio 2006

Logo À Noite, No Aviz

A Nova Vaga vai levar a efeito a 3ª conferência sobre os 30 anos da Constituição. É hoje, às 21.15 horas, no Hotel Aviz, em Lisboa, na Rua Duque de Palmela. São oradores convidados, António Almeida Santos e João Bosco Mota Amaral, deputados e ex-Presidentes da Assembleia da República. A entrada é livre.

05 Maio 2006

3ª Conferência

A Nova Vaga vai levar a efeito a 3ª conferência sobre os 30 anos da Constituição. É já na próxima quinta-feira, 11 de Maio, às 21 horas, no Hotel Avis, em Lisboa, na Rua Duque de Palmela. São oradores convidados, António Almeida Santos e João Bosco Mota Amaral, deputados e ex-Presidentes da Assembleia da República. A entrada é livre.

04 Maio 2006

Aviso à Navegação

Sempre que encontrarem a capa da Nova Vaga no blogue, é favor linkar. Encontrarão uma surpresa.

Em Preparação o nº 4

O tema é "Que Modelo Para a União Europeia?" e os convidados são de peso.

02 Maio 2006

Agradecimentos

Ao Rui Costa Pinto, ao André Azevedo Alves, ao Tomás Vasques, à Susana Barbosa, ao A. J. Brandão de Pinho, ao Rui Castro e ao Bruno Gonçalves, por terem anunciado a chegada da Nova Vaga.

30 Abril 2006

Destaques (11)

"Nunca fez sentido ter um texto constitucional, orientado, em sentido único, para uma sociedade sem classes e uma economia socializada ou colectiva. A parte programática foi imposta pelo M.F.A. aos Partidos, que não ousaram libertar-se deste diktat, a seguir ao 25 de Novembro de 1975. Apesar de a isso terem sido publicamente convidados pelo General Eanes. Pior, consignaram no texto constitucional severas restrições à sua revisão, conferindo ao PS o papel de árbitro permanente da revisão, através da fixação de uma maioria de revisão constitucional de 2/3. A opção pela integração europeia tornou o texto ainda mais contraditório com os objectivos nacionais, pois que obrigou e obriga a economia portuguesa a desafios acrescidos de competitividade externa e ao fim da utopia socialista".
Pedro Ferraz da Costa

Destaques (10)

"Manter a Constituição de 1976 é não só perpetuar uma visão ultrapassada e retrógrada do Estado e do mundo, como impossiblitar que das eleições livres resultem verdadeiras alternativas de poder".
Manuel Monteiro (Presidente da NovaDemocracia)

Destaques (9)

"É necessário assegurar a igualdade de oportunidades e não a igualdade de resultados, porque os homens são iguais em dignidade, mas são diferentes e muito em vontade, criatividade e mérito".
Sara Marques

Destaques (8)

"Nunca se pode esquecer que é ao povo que pertence o poder político, competindo-lhe intervir na eleição dos principais titulares do poder político e pronunciar-se através de referendo, isto mesmo que se trate de matéria constitucional; afinal, pode bem perguntar-se, que democracia é aquela em que o povo não pode pronunciar-se, em referendo, sobre a sua própria lei fundamental?"
Paulo Otero

Destaques (7)

"À semelhança da generalidade dos outros países europeus, Portugal merecia ter um texto fundamental que definisse o modelo básico de cidadania e de democracia política que queremos ser, abrindo caminho às opções de governo que, em cada momento e fruto da escolha livre dos eleitores, forem assumidas pelas maiorias conjunturais."
Luís Marques Guedes (PSD)

Destaques (6)

"As mudanças políticas necessárias que, a meu ver não radicam essencialmente no texto constitucional, são no âmbito das leis eleitorais, reforço dos poderes de fiscalização do Governo por parte da Assembleia da República, definição clara do regime de incompatibilidades e impedimentos dos titulares de cargos políticos e modernização da Assembleia da República."
Alberto Martins (PS)

Destaques (5)

"A adopção de um sistema semi-presidencial em 1976 não corresponde apenas a um compromisso firmado entre os Partidos e as Forças Armadas. Corresponde também a um amplo consenso que se gerou nesse sentido entre as forças partidárias de forma a arredar do nosso horizonte político soluções que pudessem levar à concentração de poderes num único órgão de soberania."
António Filipe (PCP)

Destaques (4)

"No contexto jusconstitucional português ganha um especial destaque (naturalmente pela negativa) a desvalorização do direito de propriedade e da liberdade de empresa pela nossa jurisprudência – o que constitui uma consequência directa da matriz colectivista que ainda caracteriza a parte da organização económica da Constituição de 1976."
João Pacheco de Amorim

Destaques (3)

"O que constato é que, embora a Mulher de hoje detenha um papel muito mais interventor, procurando igualar-se ao homem em poder de decisão, em poder económico e cultural, em poder, enfim, de decidir o seu destino, parece, não obstante, faltar algo. Creio que, muitas das vezes, esse algo começa pela sua falta de compreensão de si mesma, não distinguindo que a igualdade entre os sexos - por natureza e por essência diferentes – é ao nível das oportunidades e da partilha de responsabilidades, com efectivo respeito pelas diferenças entre ambos."
Sara Santos Costa

Destaques (2)

"Uma quinzena de assassinos matou um homem à pedrada. A sangue frio e com particulares requintes de selvajaria.Os intelectuais do costume desculpabilizam os assassinos e culpam a organização da “sociedade”, “geradora de desigualdades” e de “exclusão”. A maioria dos assassinos, quase todos com menos de dezasseis anos, encontra-se a passar férias, em regime de meia-pensão, no chamado Instituto de Reinserção Social, sob a compreensiva e cândida vigilância dos discípulos dos drs. Boaventura Sousa Santos e Laborinho Lúcio."
Diogo Pacheco de Amorim

Destaques (1)

"Não basta protestar contra o centralismo da capital, não colhem manifestações mais ou menos primárias de bairrismo paroquial. É preciso que os “homens bons” da cidade unam os seus esforços no que importa: e a ligação Porto – Galiza é uma das prioridades que, na realidade, importam. Antes que seja tarde de mais. Antes que sejamos, de novo, “expulsos do governo da cidade”…
João Almeida Garrett

Os Debates Do Grémio (1)

O líder parlamentar do PSD, Marques Guedes, no passado dia 4 de Abril uma revisão substancial da Constituição, dando razão à ideia repetida pelo PCP de que os governos têm ignorado muitos artigos do texto constitucional. Num debate promovido pelo Partido da Nova Democracia (PND), Marques Guedes qualificou de "museu vivo" a Lei Fundamental portuguesa, sugerindo a eliminação de partes do documento, e lembrou que o PSD é a favor de um referendo constitucional. O líder parlamentar do PS, Alberto Martins, discordou do referendo e da necessidade de se mudar o texto da Constituição, desvalorizando a linguagem utilizada e argumentando que, embora sendo "um bocadinho barroca", deve ser lida "de forma actualista".
Marques Guedes propôs extinguir diversos pontos que considerou serem hoje "sem sentido" e geralmente ignorados, além de todo o capítulo da "organização económica", mantendo contudo na Constituição o princípio da subordinação do poder económico ao político. "À boa ou à má maneira portuguesa, temos assobiado um bocadinho para o lado e quedámo-nos numa leitura desrespeitosa do que está na Constituição", disse, reforçando que "razão tem o PCP quando diz que os governos fazem tábua rasa e ignoram o que está na Constituição". O líder parlamentar do PSD citou artigos que incumbem o Estado de "eliminar os latifúndios", preconizar "a dissolução dos blocos político-militares", assegurar a participação das organizações representativas dos agricultores na definição da política agrícola, ou apoiar "experiências viáveis de autogestão". Este último exemplo causou risos na assistência, onde estava o presidente do PND, Manuel Monteiro, bem como no terceiro convidado para o debate, o professor universitário Paulo Otero, que elaborou o projecto constitucional da Nova Democracia, e em Alberto Martins. "Já nem falo do ensino ou da saúde tendencialmente gratuitos, que todos temos consciência da sua impraticabilidade", referiu ainda o dirigente social-democrata. "Por decência isto deve ser retirado. A Constituição está transformada num museu vivo", resumiu.
O líder parlamentar do PS, Alberto Martins, contestou a "revisão constitucional sem complexos" defendida por Marques Guedes, contrapondo que alguns artigos "podem ter várias leituras" e "têm de ser lidos de forma actualista, porque a Constituição tem 30 anos". Mesmo a expressão do preâmbulo "abrir caminho para uma sociedade socialista", assinalada por Manuel Monteiro no início da sessão, foi apontada por Alberto Martins como "uma âncora referencial da história" que tem meramente "um valor utópico" e não precisa de ser abolida. Alberto Martins admitiu porém que as matérias de economia e de relacionamento com a União Europeia possam merecer "alguma actualização" e recordou que o PS propôs que listas de independentes pudessem concorrer às eleições legislativas mas que "o PSD não quis".
Os líderes parlamentares do PS e do PSD estiveram unidos, no entanto, na rejeição à elaboração de uma nova Constituição, como propõe o PND, com apenas 14 artigos e estabelecendo que o Presidente da República preside ao Conselho de Ministros. Em resposta a um elemento da assistência, Marques Guedes disse concordar que, em vez de proibir organizações que perfilhem a "ideologia fascista", a Constituição proíba "ideologias totalitárias" e Alberto Martins assentiu que talvez essa solução seja "mais rigorosa".

Fonte: Lusa

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