A Europa Rastejante
Escreve-se por aí e por todo o lado, a propósito do Líbano, que a Europa anda indecisa . A Europa não anda indecisa; pelo contrário: a Europa rasteja cheia de decisão. Porque, liderada pelos seus intelectuais orgânicos, sempre que vislumbra, empunhado com decisão, chicote pela frente, a Europa afocinha na lama e rasteja. Afocinhou na lama e rastejou aos pés de Hitler: “Antes castanhos que mortos…”. Afocinhou na lama e rastejou aos pés de Estaline e seguidores: “Antes vermelhos que mortos…”. Afocinha na lama e rasteja, cabeça para Oriente e rabo para Ocidente, aos pés de imãs, sheiks e aiatolas vários: “Antes negros que mortos…”. Esta Europa e estes europeus saídos da I Grande Guerra e da destruição do Império Austro-Húngaro estão mortos e ainda não perceberam.
Estão mortos porque deixaram de ter filhos. Agora têm cães, de raças ridículas, cães perfumados, engalanados e mal-educados. E de certo modo ainda bem, porque quando têm filhos, educam-nos pior do que educam os cães. Estão mortos porque deixaram de segregar verdadeiras elites. Só para focarmos o universo político em três países europeus de primeira plana: alguém acredita que Chirac, Zapatero ou Prodi teriam ultrapassado, na Europa de há cem anos, a fasquia da presidência de uma câmara municipal de terceira linha?
Estão mortos porque mergulharam no culto da Igualdade, movidos pela única emoção que lhes resta, a inveja. E conseguiram, finalmente, atingir a igualdade. A única que existe: a igualdade dos cemitérios. Estão mortos, finalmente, porque esqueceram o único valor insubstituível, porque matricial da cultura e da civilização europeias: o valor da liberdade. Para a Europa e para os europeus tudo está bem desde que, a horas certas, lhes enfiem, pelas grades da prisão, a gamela. Mesmo que a gamela lhes seja atirada à cara e tenham, para comer a sopa derramada, de lamber o chão.
Escravos, há cinquenta anos, de Estados que fazem, nas suas vidas, a chuva e o bom-tempo, os europeus habituaram-se a rastejar, no fascínio pela força, pela prepotência e pela brutalidade. Este é o verdadeiro retrato da Europa e dos europeus. O nosso retrato. E, mais uma vez, apenas uma réstea de esperança de não sucumbir: A Inglaterra que, como sempre, resiste, resiste e resiste...
Diogo Pacheco de Amorim
In Nova Vaga, nº 5.

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