27 Novembro 2006

Portugal Essencial

… Debater, hoje, a Direita em Portugal, mais do que explicitar um pensamento político capaz de a distinguir e enfrentar a Esquerda, deve reconduzir-nos à essência da Nação Portuguesa, aos seus valores primeiros e permanentes e a uma visão historicamente fundada do seu papel no mundo contemporâneo …

Em boa hora a NovaDemocracia e o seu Presidente (re) abriram o debate sobre a Direita Portuguesa. Debate praticamente silenciado pelo Estado Novo cuja doutrina oficial, respeitando embora formalmente os valores tradicionais da Direita, exprimia mais instrumentos de uma prática política – o antiparlamentarismo, o condicionamento da opinião – do que uma ideologia.
Debate interdito pelo poder saído da Revolução de Abril com a proibição dos partidos políticos à direita do CDS, como o Partido da Democracia Cristã, o Partido do Progresso e o Partido Liberal.
Debate evitado pela Direita Oficial, representada pelo CDS e por importantes sectores do PSD, que vêem na actual situação totalmente indefinida e confusa, sem debate ideológico, em que são mais as semelhanças do que as diferenças entre partidos políticos ditos de direita e de esquerda, inquestionáveis vantagens de curto prazo: a aposta no Grande Centro, formado pelo CDS, PSD e PS sob a égide e com a caução de Cavaco Silva; e a sobrevivência de um partido ideologicamente assexuado, ou partido guarda-chuva, o PSD, que não resistiria, na sua actual configuração, a uma salutar separação de águas resultante de um debate político sério e profundo.

Debater, hoje, a Direita em Portugal, mais do que explicitar um pensamento político capaz de a distinguir e enfrentar a Esquerda, deve reconduzir-nos à essência da Nação Portuguesa, aos seus valores primeiros e permanentes e a uma visão historicamente fundada do seu papel no mundo contemporâneo.
Em primeiro lugar, à própria existência e subsistência da Nação enquanto tal.

Ao internacionalismo da Esquerda, resultante de uma perspectiva igualitária e determinista, segundo a qual os homens são, na sua esmagadora maioria e por toda a parte, pobres deserdados que nada podem fazer para mudar a sua triste situação, deve a Direita opor um nacionalismo identitário, fundado na convicção de que cada homem só encontra a sua plenitude ontológica por referência à Nação a que pertence, Pátria e Mátria, raiz indispensável e matriz conformadora da sua existência e acção.
Afirmar e defender a existência e continuidade da Nação Portuguesa, livre e independente, honrar os seus heróis e as figuras históricas que desempenharam papéis relevantes na sua origem e desenvolvimento, proteger a Língua Portuguesa e os Símbolos Nacionais, em particular a Bandeira e o Hino, são valores da Direita.

Valores que hão-de encontrar correspondência em políticas de direita nos diversos sectores, com destaque para a Educação e as Relações Internacionais.

Em segundo lugar, à identidade da Nação Portuguesa, modo particular de ser e estar português.
A consciência de termos nas mãos o nosso próprio destino, de sermos simultaneamente europeus, africanos, americanos e asiáticos, cristãos, judeus, muçulmanos e budistas, de aceitarmos de bom grado a diferença dos outros desde que aceitem a nossa, de não nos sentirmos superiores nem inferiores, de seguirmos a convivência pacífica como regra e a violência como excepção – assim se pode exprimir o essencial da nossa identidade como povo.
Identidade que há que reconhecer e preservar, porque não se pode abrir ao outro quem não se conhece e estima a si próprio.

Em terceiro lugar, ao papel de Portugal no mundo contemporâneo.

“Portugal foi grande quando se abriu ao Mundo e pequeno sempre que se fechou sobre si próprio”. O Portugal que o mar uniu em vez de dividir continua aí: sem exércitos nem fronteiras, mas com a sua língua e a sua cultura humanista, uma e outra permanentemente enriquecidas e recriadas pelas contribuições de outros povos, línguas e culturas.

Este Portugal orgulha-se do seu passado pluricontinental e multirracial, olha sem complexos os povos com que conviveu, segundo a marca própria de cada época, ao longo dos últimos quinhentos anos, vê no estabelecimento de relações preferenciais com eles, numa base de comunidade e nos mais diversos domínios, o seu desígnio nacional para o presente século. Existência, identidade e visão pluricontinental e multirracial da Nação Portuguesa – eis o debate essencial que urge fazer, para que nos possamos entender e assumir, com plena consciência e liberdade, a tarefa, sempre renovada, de cada geração: continuar Portugal!
João Almeida Garrett
In Nova Vaga, nº 6

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